A gente não percebe quando começa.
Na verdade, eu nem faço ideia de onde começou.
E nem vou perder tempo procurando,
porque o que importa é o que eu quero ser a partir de agora.
O passado já passou, e é agora, no presente, que posso atuar.
Não me vejo mais como um retrato do meu passado, como se minhas experiências me representassem por completo.
O que eu sou agora é, sim, resultado das interpretações que fiz das situações que vivi.
Então, agora adulta, posso revisar essas interpretações, chegando a novas conclusões para ressignificar muitas crenças que ainda rodam, em segundo plano, aqui no meu HD.
Acho que esse processo de se perder de si mesmo é tão natural quanto aprender a andar ou a falar.
Faz parte do “modus operandi” desse Sistema Terra que vivemos.
Faz parte do que chamam de “crescimento” o aprendizado de como se adaptar:
observar as pessoas à nossa volta e aprender como devemos nos comportar para ser aceitos.
Mas quase ninguém nos ensina a escutar o que sentimos enquanto nos adaptamos.
A Comunicação Não Violenta propõe que todo comportamento é uma tentativa de atender a uma necessidade.
E o que a gente faz, ao se moldar, é exatamente isso: buscar pertencimento, segurança, amor.
Só que, muitas vezes, somos ensinados que nossos sentimentos e necessidades são “demais”, “fora de hora”, “inconvenientes”.
A gente não aprende a dizer: “estou com medo porque queria apoio”, ou “estou frustrado porque minha voz não foi ouvida”.
A gente aprende a silenciar.
A ceder.
A calar.
Na Psicanálise, isso é chamado de recalque.
O ego, como defesa, aprende a empurrar para o fundo tudo que parece ameaçar a aceitação ou a estabilidade emocional.
É como se disséssemos para nós mesmos: “isso aqui não pode existir, porque não é seguro”.
E aos poucos, esse movimento vira padrão.
Um automático emocional.
Jung chama isso de construção da persona: a máscara social que criamos para sermos aceitos no mundo.
Ela é uma adaptação necessária, mas não é a nossa verdade.
O problema começa quando confundimos essa máscara com quem realmente somos.
Porque por trás dela existe algo muito mais profundo: o Self.
O centro da nossa autenticidade, espontaneidade, integridade.
Enquanto a persona vive perguntando “como eu devo ser visto?”,
o Self quer saber:
“quem eu sou, mesmo que ninguém esteja olhando?”
E quanto mais a gente se afasta desse centro, mais os sintomas aparecem: angústia, cansaço, sensação de vazio, a impressão de que estamos “fazendo tudo certo” e mesmo assim algo está errado.
Vamos então para o início do problema:
Será que não deveríamos crescer aprendendo a fazer escolhas e nos colocar no mundo buscando a nossa felicidade?
Como posso contribuir com autenticidade se não sei quem sou?
Se eu sou só o que esperam de mim, qual é a minha real função?
Não aprendemos a lidar com sentimentos, só a reprimi-los.
“Para de chorar!”
“Empresta o brinquedo pro amiguinho!”
“Deixa de ser chata!”
“Para de pedir as coisas!”
“Deixa de ser sensível!”
Somos tolhidos nos mínimos atos e palavras.
Não é como se houvesse um dia claro em que escolhemos nos abandonar.
É um processo sutil. Um corte pequeno por vez.
Um gesto que incomodou, e você aprendeu a conter.
Uma verdade que foi ignorada, e você aprendeu a calar.
Um desejo seu que foi considerado “demais”, “estranho”, “fora de hora”
e você aprendeu a esconder.
E cada um desses pequenos gestos de “ajuste” foi um tijolo na construção de um personagem.
Esse personagem tem um propósito: manter você seguro.
Ele aprendeu o que era permitido, o que era louvado, o que era conveniente.
E passou a se moldar para isso.
A gente não sabe o quanto isso vai nos custar.
Ninguém explica, porque ninguém também sabe.
Só ouvimos que o mundo é cruel, e que, se não soubermos nos adaptar, seremos engolidos.
Então, o mais inteligente parece ser: “seja aceito, cause menos problema”.
Somos todos sobreviventes tentando fazer o melhor a cada geração.
Cada um escondendo seus medos, defendendo seu Eu, buscando segurança.
Mas, olhando de outro ângulo, o ângulo da alma, isso tem outro nome: traição.
Não à moral, nem à sociedade. Mas a si mesmo.
Traição do seu centro. Do seu chamado. Da sua espontaneidade.
Aquela que só existe quando a gente ainda não aprendeu que precisa caber.
Talvez “traição” soe como palavra forte.
Afinal, ninguém nos ensinou outro caminho.
Mas… será que a gente procurou?
Ou optamos pelo caminho mais fácil, já que era o mais comum?
Agora, com outra visão, eu entendo:
Essa outra versão minha, que funciona, que é eficiente, admirável, compreensiva, ela não é má.
Ela é adaptada.
Ela foi moldada como armadura.
Mas ninguém aguenta viver dentro de uma armadura o tempo todo.
Com o tempo, a alma começa a murchar.
Não porque ela desaparece.
Mas porque não tem mais onde respirar.
Então, em resumo, na psicanálise temos o recalque.
Na psicologia junguiana a persona, a máscara social.
E a Umbanda chamaria de afastamento da essência, da missão espiritual.
E uma hora, você começa a sentir que tem algo fora do lugar.
Mas não sabe o quê.
Vem o desconforto.
Vem o vazio.
Vem o “não sei mais quem eu sou”.
E aí você tenta resolver sem sair da zona de conforto:
Mais performance.
Mais leitura.
Mais busca por espiritualidade.
Mais técnica.
Mais remédio.
Mas nenhuma técnica funciona quando você tenta curar o personagem — em vez de permitir que ele vá.
E aí vem a pergunta que ninguém gosta de fazer:
Quem você precisou ser para se sentir aceito?
E o que de você precisou ser trancado no porão para essa versão existir?
Não há julgamento aqui. Só uma pausa.
Porque talvez, nesse momento, alguma parte sua esteja batendo na porta.
Não para te acusar.
Mas para te lembrar: sua alma nunca foi embora.
Ela só foi silenciada.
E está pronta para voltar.
Se você permitir.
Você ainda está aí, querendo conhecer seus sentimentos, seus limites, seus gostos, seus pontos fortes e fracos.
E não importa quanto tempo passou — enquanto há vida, há tempo para viver.
Talvez tenha chegado a hora de se apresentar ao mundo.
Cumprir seu papel.
Deixar de ser coadjuvante.
Ou, como dizem os gamers, um personagem não jogável, um NPC.
Assuma a responsabilidade pela sua vida.
Pela sua felicidade.
Tem muitos faróis por aí — autores, mestres, técnicas, ferramentas.
Mas não tem pra onde correr: a resposta está dentro de você.
E só aceitando a vergonha de termos sido tão frágeis, e de termos criado um personagem nem sempre tão agradável, é que vamos conseguir nos olhar de verdade.
A tarefa agora é buscar, dentro de si, o que é seu.
E deixar ir, com coragem, o que nunca foi.
Espero que mais gente se anime a entrar nessa montanha-russa emocional,
Com alegria e tristeza nos tirando do porão escuro,
E expandindo nosso brilho
Para que a gente também se torne um farol.
Um farol de esperança.
De superação.
De coragem.
E, acima de tudo, de autenticidade.

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