MEDIUNIDADE: UM SENTIDO QUE NÃO APRENDEMOS A USAR?

Há algum tempo, acompanhando pessoas em seus processos de desenvolvimento mediúnico, uma coisa começou a chamar minha atenção. O que eu vejo são pessoas sinceramente interessadas em aprender, mas também muito preocupadas em acertar.

“Será que eu estou sentindo alguma coisa?”
“Isso é meu ou é da entidade?”
“Por que eu não sinto como fulano sente?”
“Será que eu estou inventando?”
“Quando eu vou incorporar?”
“E se eu não conseguir me entregar?”

As perguntas são sempre as mesmas e, apesar de parecerem diferentes, nascem de um mesmo lugar: a sensação de que, de alguma forma, elas já deveriam saber fazer aquilo, ou vergonha por não saber.

São muitas as abordagens para conversar sobre mediunidade ou desenvolvimento mediúnico, mas comecei a perceber que nenhuma delas tocava exatamente aquele lugar.

Eu acredito que, quanto mais consciência colocamos naquilo que vivemos, mais verdadeira e completa pode ser a experiência. Por isso, para mim, não basta viver um processo: preciso tentar compreendê-lo, da sua raiz à sua manifestação.

Talvez seja por isso que eu tenha o hábito de desmontar os processos em partes e observá-los por ângulos diferentes. Uma explicação que organiza a experiência de uma pessoa pode não fazer qualquer sentido para outra. Então observo, questiono, experimento novas leituras e deixo que algumas certezas também sejam revistas.

Quanto mais formas encontramos de olhar para o mesmo processo, mais detalhes conseguimos perceber.

Foi assim que comecei a olhar de outra maneira para o desenvolvimento mediúnico.

A primeira reflexão que chegou foi bastante simples: ninguém espera que uma criança nasça sabendo andar.

E foi a partir dessa ideia que uma nova visão começou a se estruturar.

Bem, a criança.

Em algum momento, depois de alguns meses de vida, num processo natural de desenvolvimento, ela tenta ficar de pé, perde o equilíbrio, cai, tenta novamente. Nós seguramos suas mãos. Seu corpo vai aprendendo. Aos poucos, aquilo que exigia enorme concentração se torna automático.

Também não esperamos que uma criança pequena saiba explicar tudo o que sente.

Ela sente primeiro, e depois alguém dá nome:
“Está quente.”
“Isso é frio.”
“Você está com medo.”
“Esse barulho veio dali.”
“Está doendo aqui?”

Ensinamos a reconhecer sons, distinguir vozes, identificar cores, perceber temperaturas, localizar uma dor, equilibrar o corpo, interpretar expressões.

Aos poucos, aquilo que exigia esforço se torna tão natural que esquecemos que um dia precisou ser aprendido.

Pouco a pouco, a criança aprende não apenas a perceber o mundo, mas também a organizar aquilo que percebe. E fazemos isso de maneira tão natural que, quando adultos, esquecemos que houve aprendizagem.

Hoje não preciso me concentrar para calcular a distância entre minha mão e um copo antes de pegá-lo. Não preciso pensar conscientemente em cada movimento necessário para caminhar até uma porta.

Meu corpo percebe, calcula e responde.

Aprendemos a habitar nossos sentidos.

Foi pensando nisso que uma pergunta começou a tomar forma para mim:

E se uma parte da dificuldade que encontramos no desenvolvimento mediúnico estiver justamente no fato de que nunca fomos ensinados a reconhecer essa forma de percepção?

UM SENTIDO QUE NÃO RECEBEU EDUCAÇÃO

Gosto de pensar na mediunidade como uma espécie de sexto sentido. E vou explicar o que quero dizer com isso.

Não estou afirmando que a mediunidade seja, biologicamente, um sexto sentido humano comprovado pela ciência. Essa seria uma afirmação diferente e exigiria evidências que não pretendo fabricar.

Estou só propondo uma forma de pensar.

Nossos sentidos reconhecidos são estimulados, nomeados e socialmente validados desde muito cedo. Aprendemos a confiar neles, mas também aprendemos a questioná-los.

Sabemos, por exemplo, que podemos nos enganar, enxergar algo errado, não entender direito um som ou até confundir uma sensação.

Ou seja: se perceber não significa necessariamente interpretar corretamente, por que esperaríamos que fosse diferente com a mediunidade?

NÃO CHEGAMOS SEM REFERÊNCIAS

Quando uma pessoa adulta chega ao desenvolvimento mediúnico, ela não chega como aquela criança descobrindo tranquilamente uma nova capacidade. Ela chega carregada de referências.

Chega com histórias que ouviu sobre espíritos, com imagens construídas por filmes, relatos assustadores, religiões e tudo aquilo que aprendeu a associar ao mundo espiritual.

Chega com imagens de incorporação. Com experiências religiosas anteriores. Com medo. Com expectativa. Com ansiedade. Com desejo de pertencer. Com vontade de acertar.

Algumas pessoas querem desesperadamente sentir, enquanto outras têm muito medo de sentir.

Algumas querem incorporar rapidamente porque entendem a incorporação como confirmação de sua mediunidade. Outras passam boa parte do processo resistindo exatamente à possibilidade de perder o controle.

E, no meio de tudo isso, talvez estejamos pulando uma pergunta muito mais elementar:

O que você percebe?
Não o que você acha que significa.
Não quem você acredita que esteja perto.
Não qual entidade seria.
Não se aquilo é “bom” ou “ruim”.

O que, efetivamente, você percebeu?
Foi uma mudança de temperatura?
Um pensamento?
Uma emoção repentina?
Uma alteração corporal?
Uma imagem mental?
Uma vontade?
Uma sensação difícil de nomear?

Ou talvez você não tenha percebido absolutamente nada.

Antes de interpretar, existe a experiência.
E essa distinção, para mim, tornou-se fundamental.

Perceber, Observar, Discernir. E, só então, depois disso, interpretar.

TALVEZ ESTEJAMOS TENTANDO COMEÇAR PELO FINAL

Quando pensamos em desenvolvimento mediúnico, é muito fácil colocar nossa atenção nos fenômenos.

Incorporação. Clarividência. Intuição. Percepção de presenças. Comunicação.

Mas talvez estejamos olhando para o final de um processo e chamando aquilo de desenvolvimento.

A incorporação, por exemplo, pode ser uma expressão da mediunidade. Mas ela não pode ser a medida de toda experiência mediúnica. Uma pessoa não necessariamente está mais desenvolvida porque incorpora.

Da mesma maneira, alguém que percebe intensamente não necessariamente possui maior discernimento sobre aquilo que percebe.

Sensibilidade e Maturidade não são a mesma coisa.

Isso muda bastante a pergunta.
Em vez de: “Como faço para incorporar?”, podemos começar perguntando: “Como eu percebo?”

Depois:
“Como reconheço minhas próprias sensações?”
“Como diferencio percepção de interpretação?”
“Como reconheço meus medos, desejos e expectativas dentro da experiência?”
“Como aprendo a regular minha sensibilidade?”
“Como construo discernimento?”

E talvez seja exatamente aqui que desenvolvimento humano e desenvolvimento mediúnico deixem de ser coisas separadas. Porque quem percebe não é uma mediunidade abstrata. É uma pessoa.

Com corpo, história, emoções, crenças, traumas, desejos, vaidades, inseguranças, expectativas e escolhas.

Tudo isso atravessa a experiência mediúnica.

QUANDO PERCEBER AINDA EXIGE ESFORÇO

Existe um modelo bastante conhecido no campo da aprendizagem chamado de quatro estágios da competência, que cabe perfeitamente nessa reflexão.

INCOMPETÊNCIA INCONSCIENTE
Primeiro, eu não sei — e nem sei que não sei.

INCOMPETÊNCIA CONSCIENTE
Depois, descubro que não sei.

COMPETÊNCIA CONSCIENTE
Em seguida, começo a aprender e preciso prestar atenção para conseguir fazer.

COMPETÊNCIA INCONSCIENTE
Até que, depois de prática e experiência, determinadas habilidades podem se tornar mais naturais.

Gosto desse modelo porque ele oferece uma imagem muito simples de algo que acontece em praticamente toda aprendizagem, e que também pode nos ajudar a pensar o desenvolvimento mediúnico.

Talvez muitas pessoas cheguem ao terreiro justamente no momento em que começam a perceber que não sabem lidar com aquilo que percebem.

E isso pode ser desconfortável. Porque tornar-se consciente de uma incapacidade geralmente é. Mas perceber que ainda não sabemos não deveria ser motivo de vergonha. É o começo da aprendizagem.

O problema aparece quando tentamos atravessar essa etapa rapidamente para ocupar o lugar de quem “já sabe”. É aí que podemos começar a forçar sensações, imitar manifestações, procurar confirmação em tudo, comparar nossa experiência com a do outro ou transformar qualquer alteração interna em mensagem espiritual.

Talvez uma parte do sofrimento do desenvolvimento mediúnico venha justamente da expectativa de saber fazer algo que nunca aprendemos a fazer.

Se isso for verdade, precisamos mudar também nossa maneira de conversar sobre o assunto.

EDUCAÇÃO DA PERCEPÇÃO

Foi aqui que aquela comparação inicial começou, para mim, a ganhar outro tamanho.

Talvez desenvolver mediunidade não seja simplesmente desenvolver fenômenos. Talvez seja também uma educação da percepção.

E, quando penso em educação, penso em processo. Em começar a prestar atenção no que sinto, observar antes de concluir, reconhecer como eu normalmente funciono para depois perceber quando alguma coisa muda.

Penso também em conseguir conviver um pouco melhor com a dúvida. Não precisar preencher imediatamente aquilo que ainda não sei. Conseguir dizer “não sei” sem achar que isso diminui minha mediunidade.

Porque talvez uma das coisas mais difíceis nesse processo seja justamente não dar uma explicação espiritual para tudo aquilo que surge dentro de nós.

Isso pode parecer contraditório, mas, para mim, é justamente o contrário. Levar a espiritualidade a sério exige discernimento.

Afinal, se tudo é espírito, nada precisa ser investigado.

Se todo pensamento repentino é comunicação, toda angústia é obsessão, todo arrepio é presença e toda intuição é orientação de guia, em algum momento deixamos de observar o que acontece e começamos apenas a encaixar nossas experiências em explicações que já estavam prontas.

E não é isso que eu entendo como ampliar a percepção.

Talvez uma espiritualidade mais consciencial comece justamente aí: na capacidade de sustentar uma pergunta por algum tempo, sem precisar correr para uma resposta.

NÃO SOMOS APENAS RECEPTORES

Ainda tem outra consequência dessa forma de pensar. Normalmente falamos da mediunidade como se o médium fosse alguém que recebe alguma coisa. Uma parte passiva no processo, independente de suas experiencias, habilidades e conhecimento.

Mas qualquer relação pressupõe interação, troca.

Dentro da compreensão espiritual com a qual trabalho, não somos recipientes vazios esperando a aproximação de um espírito. Nós também participamos. Costumo dizer que fazemos parte da equipe e, por isso preciso ser parceira e fazer minha parte da melhor forma possível.

Nós participamos dessa relação com aquilo que somos naquele momento: nossa condição emocional, nossos pensamentos, nossa intenção, nossa história e, também, nosso próprio campo.

É justamente por isso que autoconhecimento não pode ser um adereço dentro do desenvolvimento mediúnico. Quanto menos conheço meus próprios movimentos, mais difícil se torna distinguir aquilo que mudou.

Para reconhecer o que talvez não seja meu, preciso começar conhecendo aquilo que é meu. E isso leva tempo.

Percepção é algo que se exercita e pode exigir aprendizagem, atenção, experiência e discernimento. Por isso, estudo, prática e desenvolvimento pessoal também fazem parte desse processo. Quanto mais eu conheço aquilo que acontece dentro de mim, mais elementos tenho para observar aquilo que muda.

E aqui espiritualidade e conhecimento sobre o funcionamento humano podem conversar sem que um precise fingir ser o outro.

MEDIUNIDADE NÃO SE LIGA NA PORTA DO TERREIRO

Há ainda uma consequência que acho muito importante abordar.

Se compreendemos a mediunidade apenas como aquilo que acontece durante uma gira, corremos o risco de nos tornarmos médiuns capazes de participar de um trabalho espiritual, mas incapazes de compreender nossa própria sensibilidade no restante da vida.

Para mim, somos médiuns também na vida cotidiana. A mediunidade faz parte de nós e conversa com a nossa percepção do mundo físico, energético e espiritual. Não é algo que começa quando entramos no terreiro e termina quando saímos.

Somos médiuns, assim como somos humanos, vinte e quatro horas por dia.

Mas isso não significa estar “aberto” o tempo todo, incorporar fora de hora ou perceber espíritos permanentemente. Pelo contrário, desenvolver a mediunidade também envolve aprender a lidar com essa sensibilidade, entender seus limites e perceber quando é necessário se reorganizar.

Por isso, quando digo que somos médiuns vinte e quatro horas por dia, não estou dizendo que precisamos estar em estado de trabalho mediúnico o tempo inteiro. Estou dizendo que a mediunidade faz parte de quem somos e da maneira como percebemos e nos relacionamos com o mundo.

Talvez seja parecido com o que acontece com nossos outros sentidos. Continuamos ouvindo quando não estamos prestando atenção aos sons e continuamos sentindo cheiros, temperaturas e sensações físicas sem precisar analisar cada uma delas. Aos poucos, aprendemos o que merece nossa atenção e o que simplesmente faz parte do ambiente.

Por que com a percepção mediúnica seria necessariamente diferente?

É nesse sentido que, para mim, se desenvolver mediunicamente não é aprender a “ligar” a mediunidade. É aprender a viver conscientemente com ela.

E isso inclui outra coisa que considero fundamental: não espiritualizar tudo.

Somos seres espirituais, mas também somos humanos. Temos emoções, conflitos, questões de saúde, dificuldades nos relacionamentos e lidamos com as consequências das nossas próprias escolhas. Nem tudo o que nos acontece precisa ter uma origem espiritual.

Discernimento também passa por isso: observar o que está acontecendo e tentar compreender onde aquela questão precisa ser cuidada, sem correr para uma explicação pronta.

Isso também é desenvolvimento mediúnico. E talvez seja uma das partes mais importantes dele.

ENTÃO, A MEDIUNIDADE É UM SEXTO SENTIDO?

Eu poderia terminar tentando responder essa pergunta, mas já não tenho certeza de que ela seja a pergunta mais interessante.

Não sei se algum dia a ciência chamará a mediunidade de sexto sentido. E também não preciso dessa chancela para pensar sobre aquilo que observo dentro da experiência religiosa e mediúnica.

A pergunta que ficou para mim é outra:

O que acontece quando passamos a olhar para a mediunidade como uma capacidade perceptiva que também precisa de educação?

Porque, se olhamos dessa forma, algumas coisas mudam.

Talvez a preocupação em sentir alguma coisa extraordinária perca um pouco da importância. Talvez seja mais interessante aprender a prestar atenção.

Também deixa de fazer muito sentido comparar quem sente mais, quem incorpora primeiro ou quem parece ter manifestações mais intensas. O que importa é entender como cada pessoa percebe e, principalmente, o que ela faz com aquilo que percebe.

Até a dúvida ganha outro lugar.

Não saber imediatamente se uma sensação é minha, se veio do ambiente ou se tem alguma origem espiritual não precisa ser um fracasso. Pode ser exatamente o ponto de partida da investigação.

E aquela pergunta tão comum no desenvolvimento: “quem é?”, talvez possa esperar um pouco.

Antes dela, existe outra:
“O que eu percebi?”

Acho que é nesse ponto que começa a aparecer com mais clareza o que costumo chamar, nas nossas rodas de conversa, de Consciencial da Umbanda.

Não como uma nova verdade pronta, mas como uma forma de olhar para a própria experiência umbandista. Quanto mais ampliamos nossa relação com aquilo que não vemos, mais precisamos ampliar também a consciência sobre nós mesmos.

Porque não vejo muito sentido em desenvolver uma sensibilidade espiritual cada vez maior se, junto com ela, não desenvolvemos discernimento, responsabilidade e capacidade de escolha.

Para mim, uma coisa precisa acompanhar a outra.

Volto, então, à imagem que iniciou esta reflexão.
Uma criança não aprende a caminhar porque alguém explica perfeitamente o funcionamento das pernas.

Ela experimenta, perde o equilíbrio, descobre o próprio corpo, tenta de novo. Aos poucos, aprende. E um dia caminha sem precisar pensar em cada passo.

Talvez tenhamos tornado o desenvolvimento mediúnico excessivamente misterioso ao esquecer algo muito simples: ninguém deveria se sentir obrigado a saber usar aquilo que nunca foi ensinado a reconhecer.

Talvez desenvolver a mediunidade tenha menos a ver com produzir algo extraordinário e mais com aprender a lidar com uma percepção para a qual nunca recebemos educação.

No fim, talvez seja isso: aprender a perceber conscientemente.


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