Arquivo de Consciência - Umbanda em Palavras https://umbandaempalavras.com/tag/consciencia/ Umbanda como caminho de cura, consciência e amor Tue, 08 Sep 2026 18:39:42 +0000 pt-BR hourly 1 https://wordpress.org/?v=7.1.2 https://umbandaempalavras.com/wp-content/uploads/2025/06/cropped-ChatGPT-Image-16-de-jun.-de-2025-13_40_34-1-32x32.png Arquivo de Consciência - Umbanda em Palavras https://umbandaempalavras.com/tag/consciencia/ 32 32 O Verdadeiro Malandro Não Engana Ninguém  https://umbandaempalavras.com/malandro-na-umbanda/ https://umbandaempalavras.com/malandro-na-umbanda/#respond Sat, 25 Apr 2026 00:28:54 +0000 https://umbandaempalavras.com/?p=304 O que a Linha dos Malandros pode ensinar sobre saber viver. Eu acho curioso que uma Linha chamada de Malandros tenha tanto a ensinar sobre ética. Fora da Umbanda, quando a gente fala em malandro, quase sempre vem aquela imagem da pessoa esperta que engana, tira vantagem, passa alguém para trás e ainda acha bonito […]

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O que a Linha dos Malandros pode ensinar sobre saber viver.

Eu acho curioso que uma Linha chamada de Malandros tenha tanto a ensinar sobre ética.

Fora da Umbanda, quando a gente fala em malandro, quase sempre vem aquela imagem da pessoa esperta que engana, tira vantagem, passa alguém para trás e ainda acha bonito ter conseguido. Só que, quando a gente começa a observar a Linha dos Malandros dentro da Umbanda, essa ideia vai ficando pequena.

O Malandro conhece a rua, conhece gente e entende muito bem a diferença entre conversa boa e conversa furada. Sabe que nem todo sorriso é amizade, que nem toda oportunidade precisa ser agarrada e que, às vezes, sair de uma situação é muito mais inteligente do que insistir nela.

Talvez seja justamente por conhecer tão bem esse lado da vida que ele tenha tanto a ensinar sobre como caminhar por ela sem perder a própria direção.

Eu venho pensando na Umbanda como uma espécie de manual da vida. Não um manual com uma resposta pronta para cada problema, mas um lugar onde vamos aprendendo, aos poucos, a lidar com coisas que fazem parte da experiência de todo mundo: escolhas, relações, limites, perdas, desejos, medo, responsabilidade.

E cada Linha ensina isso de um jeito.

O Preto-Velho pode chamar nossa atenção para uma coisa, o Caboclo pode fazer a gente olhar para a mesma situação por outro ângulo, Exu pode colocar luz em algo que estava passando despercebido. Os Malandros também têm a sua forma de ensinar e, para mim, ela passa muito por entender o movimento da vida, perceber o ambiente e saber que nem tudo precisa ser resolvido batendo de frente.

Por isso gosto de pensar nos Guias também como professores.

Eles não chegam explicando tudo de uma vez. Às vezes uma entidade fala uma frase simples numa consulta e a gente acha que entendeu. Passam alguns dias, acontece alguma coisa e aquela frase volta na cabeça. Só então a gente percebe que tinha ali muito mais coisa do que conseguimos enxergar na hora.

Acho que eles ensinam muito assim, aos poucos, na medida em que a gente também se coloca no lugar de quem quer aprender. E talvez uma das grandes aulas da Linha dos Malandros seja justamente sobre isso: aprender a viver com mais atenção.

Afinal, o que é malandragem?

Para mim, jogo de cintura é uma das primeiras coisas que aparecem quando penso nessa Linha.

Só que ter jogo de cintura não significa fazer qualquer coisa para conseguir o que se quer. Tem mais a ver com conseguir entender onde você está, com quem está lidando e qual é a melhor forma de agir naquela situação sem precisar deixar seus próprios valores de lado.

Tem situações em que vale falar e outras em que ficar quieto é mais inteligente. Às vezes é preciso insistir um pouco mais, mas também existem momentos em que continuar insistindo só vai fazer a gente gastar energia com algo que já não faz sentido.

Isso parece bem óbvio quando a gente fala, mas na vida real nem sempre é.

Quantas vezes percebemos que uma situação já não está boa e continuamos nela? Quantas discussões levamos adiante mesmo depois de entender que ninguém mais está ouvindo ninguém? Quantas vezes respondemos alguma coisa na mesma hora só porque fomos provocados e, depois, pensamos que talvez tivesse sido melhor esperar um pouco?

Eu vejo muito da malandragem aí, nessa capacidade de perceber a situação antes de simplesmente reagir a ela.

Às vezes existe um espaço muito pequeno entre o que acontece e aquilo que fazemos com o que aconteceu. Só que, quando a gente começa a perceber esse espaço, algumas perguntas aparecem. Eu preciso mesmo entrar nessa discussão? Preciso responder agora? Estou fazendo isso porque realmente quero ou porque meu orgulho foi atingido? Essa pessoa está me mostrando alguma coisa que eu não quero ver ou está simplesmente tentando me puxar para um lugar onde eu não quero estar?

Talvez a esperteza que os Malandros ensinam tenha muito mais a ver com isso do que com ser mais esperto que alguém.

Aprender a ler a vida

No texto antigo eu escrevi uma frase de que ainda gosto: o Malandro lê a cartilha da vida.

Hoje eu entendo essa frase de um jeito um pouco diferente.

Ele lê porque presta atenção. Observa as pessoas, percebe os ambientes, aprende com aquilo que vive e começa a reconhecer situações que já conhece. Não porque nunca erre ou porque tenha sempre a resposta certa, mas porque existe uma atenção para o que está acontecendo.

Isso não quer dizer que toda situação ruim tenha sido colocada no nosso caminho para ensinar alguma coisa. Tenho cada vez mais cuidado com esse tipo de ideia, porque nem toda dor precisa virar lição e nem tudo o que acontece tem um sentido que a gente vai conseguir encontrar.

Tem coisas que machucam, perdas que doem, injustiças e situações que talvez nunca façam sentido. Ainda assim, depois que alguma coisa já aconteceu, em algum momento pode surgir uma pergunta importante: o que eu faço com isso agora?

Para mim, essa mudança de pergunta tem muito a ver com a sabedoria dessa Linha.

Não significa fingir que não doeu ou transformar sofrimento em sinal de fraqueza. É conseguir perceber que, mesmo quando eu não tive escolha sobre aquilo que aconteceu, talvez tenha alguma escolha sobre o que vou fazer daqui para a frente.

E essa parte, sim, é minha.

Esperteza também precisa de limite

Tem gente que confunde esperteza com a capacidade de levar vantagem.

Eu não consigo enxergar a malandragem da Umbanda desse jeito.

Uma pessoa pode ser extremamente inteligente e usar essa inteligência para manipular alguém. Pode perceber as fragilidades do outro, entender exatamente onde tocar e usar tudo isso para conseguir o que quer. Isso exige habilidade, claro. Mas eu não chamaria isso de sabedoria.

O que me chama atenção na Linha dos Malandros é justamente a mistura de esperteza com limite. É conseguir perceber quando alguém está tentando nos levar para determinado jogo e, ainda assim, escolher não jogar da mesma forma.

Às vezes isso significa se defender sem precisar destruir o outro, sair de uma situação sem transformar aquilo numa necessidade de vingança ou simplesmente reconhecer uma intenção ruim e decidir não alimentar mais aquilo.

Na teoria parece simples. Na prática, principalmente quando mexem num ponto sensível nosso, é outra história.

É muito fácil falar sobre equilíbrio quando ninguém está nos irritando. O problema começa quando alguém nos provoca, nos engana, nos desrespeita ou atinge justamente aquilo que ainda consegue tirar a gente do eixo.

É nessas horas que aquilo que a gente aprende dentro do terreiro começa a encontrar a vida real.

E a alegria?

Outra coisa que sempre me chama atenção nos Malandros é a alegria. E não estou falando daquela obrigação de estar bem o tempo inteiro ou de fingir que tristeza, raiva, cansaço e preocupação não existem.

O que me interessa é outra coisa: o quanto a gente vai carregando situações muito depois de elas terem terminado.

Às vezes uma conversa aconteceu uma vez, mas nós repetimos cinquenta dentro da cabeça. Pensamos no que deveríamos ter dito, imaginamos o que a pessoa quis dizer, criamos respostas, voltamos ao assunto e mantemos aquilo vivo muito depois de o acontecimento ter passado.

Eu faço isso também. E, quando percebo, já gastei muito mais energia com aquilo dentro da minha cabeça do que com o fato em si.

Talvez a leveza que eu vejo nos Malandros passe um pouco por saber quando uma coisa já cumpriu o tempo dela. Não é esquecer, fingir que nada aconteceu ou simplesmente mandar todo mundo “seguir em frente”. É entender o que dá para entender, fazer o que é possível fazer e perceber quando continuar alimentando aquilo já não está ajudando em nada.

Isso é diferente de não sentir.

Acho que é mais sobre não deixar que uma situação ocupe dentro da gente muito mais espaço do que ela precisa ocupar.

O que o Guia está tentando ensinar?

Talvez esse seja um dos pontos que mais tenham mudado na minha forma de olhar para a Umbanda.

É muito fácil procurar uma entidade pensando no que ela pode fazer pelo nosso problema. A gente quer saber se o caminho vai abrir, se alguma coisa vai ser tirada, se a situação vai mudar, se haverá proteção, se aquilo vai se resolver.

Eu entendo isso porque muitas vezes é justamente um problema que leva a gente até o terreiro.

Só que, com o tempo, comecei a perceber que existe uma outra pergunta que também pode ser feita: o que esse Guia está tentando me ensinar com essa conversa?

Porque, às vezes, a consulta parece falar sobre uma situação externa, mas o aprendizado está em outro lugar. Pode estar na dificuldade que tenho de colocar limite, na minha necessidade de aprovação, no impulso de responder a tudo, na insistência em uma situação que já terminou ou até na dificuldade de admitir que alguma escolha minha também participou daquele problema.

E o interessante é que os Guias nem sempre entregam isso como uma explicação completa.

Às vezes vem numa frase, numa brincadeira ou num comentário que, naquele momento, parece quase sem importância. A gente sai da consulta e segue a vida. Depois alguma coisa acontece e aquela fala volta.

Aí a ficha cai.

É isso que quero dizer quando falo que os Guias ensinam aos poucos. Algumas coisas simplesmente não conseguimos entender antes de viver um pouco mais.

E existe uma diferença grande entre procurar uma entidade apenas querendo uma resposta e chegar diante dela disposto a aprender alguma coisa.

O professor pode ser o mesmo. O que muda é a forma como eu me coloco diante dele.

O que eu tenho aprendido com essa Linha

Quanto mais penso nos Malandros, menos consigo associar malandragem a enganar alguém.

A malandragem que vejo ensinada nessa Linha tem muito mais a ver com aprender a andar pelo mundo prestando atenção. Entender que existem pessoas boas e outras nem tão bem-intencionadas, perceber que nem toda provocação merece resposta e reconhecer que algumas portas fechadas talvez não precisem ser arrombadas.

Também passa por uma coisa que nem sempre é confortável: perceber o quanto nós mesmos podemos entrar em algumas armadilhas.

Às vezes não foi ninguém que nos derrubou. Nós interpretamos uma situação de determinada forma, reagimos rápido demais, insistimos por orgulho ou ficamos tanto tempo tentando provar alguma coisa que esquecemos de perguntar se aquilo ainda fazia sentido.

Não gosto de usar isso para colocar toda responsabilidade sobre a pessoa, porque a vida não funciona assim. Existem situações em que realmente somos prejudicados, enganados ou machucados pelo outro. Mas também existem momentos em que olhar apenas para o que fizeram conosco impede que a gente perceba o que ainda pode fazer por si mesmo.

Talvez seja aí que a espiritualidade comece a deixar de ser apenas uma explicação para o que acontece ao nosso redor e passe a participar da forma como lidamos com o que acontece.

É por isso que gosto tanto dessa Linha.

Os Malandros não me parecem professores de como ganhar o jogo da vida. Até porque nem sei se existe esse jogo em que alguém realmente ganha tudo.

Para mim, eles ensinam a perceber melhor onde estamos pisando, com quem estamos lidando, quando vale insistir e quando é melhor mudar de caminho. E, no meio disso tudo, talvez exista uma pergunta ainda mais importante: quem eu escolho ser enquanto atravesso tudo isso?

Acho que é aí que a malandragem começa a ficar realmente interessante.

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Umbanda: uma filosofia de vida https://umbandaempalavras.com/umbanda-uma-filosofia-de-vida/ https://umbandaempalavras.com/umbanda-uma-filosofia-de-vida/#respond Wed, 18 Jun 2025 00:29:43 +0000 https://umbandaempalavras.com/?p=161 A Umbanda, para mim, sempre foi mais do que uma religião praticada em determinados dias da semana. Com o tempo, fui percebendo que aquilo que eu escutava dentro do terreiro começava a aparecer em outros lugares. Numa conversa difícil, numa escolha que eu precisava fazer, na forma como eu reagia quando alguma coisa saía do […]

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A Umbanda, para mim, sempre foi mais do que uma religião praticada em determinados dias da semana.

Com o tempo, fui percebendo que aquilo que eu escutava dentro do terreiro começava a aparecer em outros lugares. Numa conversa difícil, numa escolha que eu precisava fazer, na forma como eu reagia quando alguma coisa saía do controle ou quando era muito mais fácil responsabilizar o outro do que olhar para mim mesma.

Talvez tenha sido aí que comecei a entender a Umbanda também como uma filosofia de vida.

Não no sentido de transformar tudo em regra ou de sair procurando uma explicação espiritual para cada coisa que acontece. Penso mais naquilo que acontece quando uma experiência espiritual realmente encontra espaço dentro de nós e começa, aos poucos, a modificar a maneira como vivemos.

Mas o que fazemos com tudo aquilo que ouvimos no terreiro?

Essa pergunta me acompanha há bastante tempo.

Às vezes penso na Umbanda como uma espécie de manual para essa experiência que estamos vivendo aqui. Não um manual com respostas prontas, dizendo exatamente o que fazer em cada situação, mas um conjunto enorme de referências para entender melhor a vida, as relações e, principalmente, a nós mesmos.

Quando começamos a conhecer os Orixás, as linhas de trabalho e os diferentes arquétipos que aparecem através dos Guias, percebemos que cada um parece iluminar uma parte dessa experiência. Um Preto-Velho me faz olhar para determinadas questões de um jeito. Um Caboclo pode me colocar diante da mesma situação por outro ângulo. Exu evidencia coisas que talvez eu preferisse não enxergar. Uma Pombagira pode tocar justamente naquele ponto em que minha relação comigo mesma, com o desejo, com os limites ou com a liberdade ainda está confusa.

E isso não acontece porque um sabe uma coisa e o outro sabe outra, como professores de matérias separadas. Eu vejo mais como diferentes portas de entrada para um conhecimento muito maior sobre a vida. Cada linha tem sua forma de ensinar, seus símbolos, sua linguagem, seu campo de atuação e uma maneira particular de chamar nossa atenção para determinados aspectos da existência.

Talvez por isso eu tenha começado a olhar para os Guias também como professores.

O Guia que me acompanha, assim como aquele que encontro numa consulta, não está ali apenas para resolver um problema que eu levei até ele. Muitas vezes, aquele problema é só o ponto de partida da conversa. Por trás da resposta existe um ensinamento que pode levar muito mais tempo para ser compreendido.

E eles ensinam aos poucos. Em doses quase homeopáticas, eu diria. À medida que uma coisa começa a fazer sentido, outra aparece. À medida que consigo enxergar um pouco mais, também consigo receber um pouco mais.

Mas existe uma condição importante nisso tudo: eu preciso me colocar no lugar de aprendiz.

Porque posso passar anos diante de um professor perguntando apenas quando minha vida vai melhorar, quem está me atrapalhando ou o que ele pode fazer por mim. Posso também começar a perguntar o que aquela situação está tentando me ensinar, o que ainda não estou percebendo e qual é a minha parte naquilo.

Talvez o professor seja o mesmo. O que muda é a forma como eu me apresento diante dele.

E é por isso que volta aquela pergunta: o que fazemos com tudo aquilo que ouvimos no terreiro?

Podemos ouvir uma entidade falar sobre paciência e continuar reagindo da mesma forma diante de qualquer contrariedade. Podemos pedir orientação sobre um relacionamento e, depois, repetir exatamente os comportamentos que nos trouxeram sofrimento. Podemos pedir abertura de caminhos sem perceber quantas vezes insistimos em escolhas que fecham esses mesmos caminhos.

Então existe uma diferença importante entre receber uma orientação e conseguir trazê-la para a própria vida.

E isso não acontece de uma hora para outra.

Muita gente chega à Umbanda procurando ajuda. Às vezes é alívio para uma situação difícil, proteção, uma orientação, alguma resposta ou simplesmente um pouco de sentido para aquilo que está vivendo.

Não vejo problema nenhum nisso. Muitas vezes é justamente uma dor que nos faz procurar a espiritualidade.

A questão, para mim, começa depois.

O que fazemos com aquilo que recebemos?

Uma entidade pode nos ajudar a enxergar uma situação por outro ângulo, perceber algo que não estávamos conseguindo ver, sustentar espiritualmente um momento difícil, aconselhar ou até nos chamar a atenção para alguma coisa.

Mas, depois desse encontro, continuamos com uma vida para viver.

As escolhas continuam sendo nossas, assim como uma parte das consequências que vêm delas. Talvez uma das coisas mais importantes que a Umbanda tenha me ensinado seja justamente essa tentativa de fazer espiritualidade e responsabilidade caminharem juntas.

Por muito tempo, comecei a levar algumas questões da vida para dentro da minha relação com os Guias de uma forma muito simples.

Diante de alguma situação, eu pensava: “O que a Vovó me aconselharia agora?”

Ou imaginava o que a Cabocla me diria se estivesse ali comigo. E, dependendo da situação, vinha outra pergunta bem menos delicada: “Com que cara a Pombagira deve estar me olhando neste momento?”

Pode parecer uma brincadeira, mas isso foi se tornando um exercício interessante para mim.

Não porque eu imaginasse uma entidade fiscalizando cada decisão minha, nem porque surgissem respostas prontas na minha cabeça. Era uma maneira de tentar sair, por alguns instantes, do lugar automático de onde eu estava enxergando o problema.

Quando estamos muito envolvidos numa situação, é fácil enxergar tudo a partir da nossa própria mágoa, do medo, das expectativas ou simplesmente daquilo que gostaríamos que acontecesse.

Ao imaginar o que uma dessas entidades poderia me dizer, às vezes eu conseguia mudar um pouco o ponto de vista. E, curiosamente, as perguntas que surgiam depois eram muito humanas.

Por que estou reagindo dessa maneira? O que eu realmente quero nesta situação? Estou tentando resolver alguma coisa ou apenas provar que estou certa? Existe algo aqui que depende de mim?

Esse tipo de pergunta não torna ninguém mais evoluído e muito menos impede que a gente erre.

Eu continuo errando.

Mas autoconhecimento tem alguma coisa a ver com isso: conseguir perceber um pouco melhor o que acontece dentro de nós antes, durante e depois das nossas escolhas.

Foi também na Umbanda que comecei a entender que olhar para nós mesmos não deveria significar passar a vida procurando defeitos.

Às vezes, o desenvolvimento espiritual acaba virando uma espécie de fiscalização permanente da própria personalidade. A pessoa começa a achar que não deveria sentir raiva, tristeza, medo ou ciúme; que qualquer emoção desconfortável revela algum tipo de fracasso espiritual. E, quando isso acontece, autoconhecimento facilmente se transforma em culpa.

Não acho que seja esse o caminho.

Nós carregamos uma história inteira conosco. Temos medos, contradições, hábitos, formas aprendidas de reagir e questões que nem sempre conseguimos perceber com facilidade. Algumas coisas ficam evidentes rapidamente. Outras levam muito tempo para aparecer. E perceber um padrão também não significa conseguir modificá-lo no mesmo instante.

Afinal, quantas vezes sabemos exatamente o que estamos fazendo e, mesmo assim, repetimos?

É por isso que tenho cada vez mais cuidado quando a ideia de responsabilidade começa a se misturar com culpa.

Para mim, assumir responsabilidade é conseguir olhar honestamente para aquilo que está ao nosso alcance.

Nem tudo que acontece na nossa vida foi escolhido por nós e nem tudo depende da nossa vontade. Existem circunstâncias, outras pessoas, limites e acontecimentos que simplesmente nos atravessam. Ainda assim, dentro de muitas situações existe alguma parte sobre a qual podemos agir.

Aprender a reconhecer essa parte, sem achar que controlamos tudo e sem entregar ao outro ou à espiritualidade aquilo que nos cabe, talvez seja uma forma de amadurecimento.

Essa mesma reflexão também mudou a forma como eu passei a olhar para a mediunidade.

Nunca consegui entendê-la apenas como incorporação. A incorporação é uma de suas expressões e tem uma importância enorme dentro do trabalho umbandista, mas a experiência mediúnica me parece participar de algo mais amplo. Ela envolve percepção, sensibilidade, discernimento e a forma como nos relacionamos com aquilo que sentimos, percebemos e interpretamos.

E, inevitavelmente, tudo isso encontra quem nós somos.

Nossos medos, expectativas, crenças e necessidades entram nessa experiência. Entra também a vontade de acertar, de pertencer, de ser reconhecido e até, em alguns momentos, o desejo de corresponder à imagem que fazemos de um “bom médium”.

Por isso, para mim, desenvolvimento mediúnico e desenvolvimento humano nunca estiveram realmente separados.

Podemos aprender procedimentos dentro de uma gira, conhecer fundamentos, estudar Orixás, Guias, linhas de trabalho, firmezas, rituais e tantos outros elementos que fazem parte da riqueza religiosa da Umbanda. Tudo isso importa.

Só que, ao mesmo tempo, existe outra aprendizagem acontecendo.

Quem é a pessoa que entra naquele terreiro?

Como ela reage quando é contrariada? Como lida com autoridade, frustração ou necessidade de aprovação? Ela consegue dizer que não sabe? Consegue ouvir uma orientação sem transformá-la automaticamente numa ordem absoluta? Consegue distinguir aquilo que percebe da interpretação que faz sobre o que percebe?

Essas questões também atravessam o desenvolvimento espiritual.

Talvez por isso eu tenha tanta dificuldade em separar completamente “vida espiritual” e “vida comum”.

Nós mudamos de roupa para entrar no terreiro, respeitamos rituais, fundamentos e a organização própria daquele espaço. Mas continuamos sendo a mesma pessoa quando voltamos para casa, para o trabalho, para a família ou para o trânsito.

E é justamente nesses lugares que muita coisa aparece.

Como tratamos alguém quando estamos irritados? O que fazemos quando ninguém está olhando? Como reagimos ao perceber que erramos? O que acontece quando uma orientação não confirma aquilo que queríamos ouvir?

É nesse sentido que, para mim, viver a Umbanda como filosofia de vida começa a fazer sentido.

Isso não diminui Orixás, Guias, rituais, fundamentos ou o trabalho espiritual. Na verdade, penso que torna essa relação ainda mais séria, porque nos obriga a perguntar o que estamos fazendo com tudo aquilo que recebemos.

Se reconheço sabedoria em uma entidade, preciso em algum momento observar o que faço com aquilo que ela me ensina. Se peço orientação, também preciso estar disposta a ouvir uma resposta que talvez não combine com a minha expectativa. Se falo sobre caridade, talvez seja interessante observar como trato as pessoas fora de um ambiente religioso. E, se falo tanto em humildade, provavelmente vale perceber o que acontece comigo quando sou contrariada.

Nada disso acontece de maneira perfeita.

E talvez nem precise acontecer.

Tenho certa desconfiança de uma espiritualidade que produz pessoas cheias de certezas sobre si mesmas, sobre os outros e, principalmente, sobre o mundo espiritual.

Quanto mais caminho dentro da Umbanda, mais percebo o tamanho daquilo que não sei. Ao mesmo tempo, algumas coisas passaram a fazer mais sentido.

Uma delas é a relação com os Guias.

Eu não acredito que estejam aqui para viver nossa vida. Uma orientação pode nos ajudar muito sem precisar decidir por nós. O amparo espiritual existe, assim como o trabalho, a proteção, a troca e a sustentação, mas isso não significa que toda dificuldade será retirada do caminho ou que cada escolha precise ser entregue à espiritualidade.

Existe uma relação profunda aí, mas continuamos sendo responsáveis pela parte da vida que nos cabe viver.

Talvez seja isso que hoje eu queira dizer quando falo que a Umbanda se tornou uma filosofia de vida para mim.

Não porque tenha me dado respostas para tudo. Pelo contrário. Em muitos momentos, ela mudou as perguntas.

E talvez a principal delas seja esta: o que tudo aquilo que aprendemos, sentimos e vivemos dentro do terreiro está fazendo com a pessoa que somos quando saímos de lá?

Porque existe uma diferença entre conhecer a Umbanda e permitir que aquilo que ela nos ensina participe realmente da forma como pensamos, escolhemos, convivemos, erramos e amadurecemos.

Eu ainda estou aprendendo a diminuir essa distância.

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