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O que a Linha dos Malandros pode ensinar sobre saber viver.

Eu acho curioso que uma Linha chamada de Malandros tenha tanto a ensinar sobre ética.

Fora da Umbanda, quando a gente fala em malandro, quase sempre vem aquela imagem da pessoa esperta que engana, tira vantagem, passa alguém para trás e ainda acha bonito ter conseguido. Só que, quando a gente começa a observar a Linha dos Malandros dentro da Umbanda, essa ideia vai ficando pequena.

O Malandro conhece a rua, conhece gente e entende muito bem a diferença entre conversa boa e conversa furada. Sabe que nem todo sorriso é amizade, que nem toda oportunidade precisa ser agarrada e que, às vezes, sair de uma situação é muito mais inteligente do que insistir nela.

Talvez seja justamente por conhecer tão bem esse lado da vida que ele tenha tanto a ensinar sobre como caminhar por ela sem perder a própria direção.

Eu venho pensando na Umbanda como uma espécie de manual da vida. Não um manual com uma resposta pronta para cada problema, mas um lugar onde vamos aprendendo, aos poucos, a lidar com coisas que fazem parte da experiência de todo mundo: escolhas, relações, limites, perdas, desejos, medo, responsabilidade.

E cada Linha ensina isso de um jeito.

O Preto-Velho pode chamar nossa atenção para uma coisa, o Caboclo pode fazer a gente olhar para a mesma situação por outro ângulo, Exu pode colocar luz em algo que estava passando despercebido. Os Malandros também têm a sua forma de ensinar e, para mim, ela passa muito por entender o movimento da vida, perceber o ambiente e saber que nem tudo precisa ser resolvido batendo de frente.

Por isso gosto de pensar nos Guias também como professores.

Eles não chegam explicando tudo de uma vez. Às vezes uma entidade fala uma frase simples numa consulta e a gente acha que entendeu. Passam alguns dias, acontece alguma coisa e aquela frase volta na cabeça. Só então a gente percebe que tinha ali muito mais coisa do que conseguimos enxergar na hora.

Acho que eles ensinam muito assim, aos poucos, na medida em que a gente também se coloca no lugar de quem quer aprender. E talvez uma das grandes aulas da Linha dos Malandros seja justamente sobre isso: aprender a viver com mais atenção.

Afinal, o que é malandragem?

Para mim, jogo de cintura é uma das primeiras coisas que aparecem quando penso nessa Linha.

Só que ter jogo de cintura não significa fazer qualquer coisa para conseguir o que se quer. Tem mais a ver com conseguir entender onde você está, com quem está lidando e qual é a melhor forma de agir naquela situação sem precisar deixar seus próprios valores de lado.

Tem situações em que vale falar e outras em que ficar quieto é mais inteligente. Às vezes é preciso insistir um pouco mais, mas também existem momentos em que continuar insistindo só vai fazer a gente gastar energia com algo que já não faz sentido.

Isso parece bem óbvio quando a gente fala, mas na vida real nem sempre é.

Quantas vezes percebemos que uma situação já não está boa e continuamos nela? Quantas discussões levamos adiante mesmo depois de entender que ninguém mais está ouvindo ninguém? Quantas vezes respondemos alguma coisa na mesma hora só porque fomos provocados e, depois, pensamos que talvez tivesse sido melhor esperar um pouco?

Eu vejo muito da malandragem aí, nessa capacidade de perceber a situação antes de simplesmente reagir a ela.

Às vezes existe um espaço muito pequeno entre o que acontece e aquilo que fazemos com o que aconteceu. Só que, quando a gente começa a perceber esse espaço, algumas perguntas aparecem. Eu preciso mesmo entrar nessa discussão? Preciso responder agora? Estou fazendo isso porque realmente quero ou porque meu orgulho foi atingido? Essa pessoa está me mostrando alguma coisa que eu não quero ver ou está simplesmente tentando me puxar para um lugar onde eu não quero estar?

Talvez a esperteza que os Malandros ensinam tenha muito mais a ver com isso do que com ser mais esperto que alguém.

Aprender a ler a vida

No texto antigo eu escrevi uma frase de que ainda gosto: o Malandro lê a cartilha da vida.

Hoje eu entendo essa frase de um jeito um pouco diferente.

Ele lê porque presta atenção. Observa as pessoas, percebe os ambientes, aprende com aquilo que vive e começa a reconhecer situações que já conhece. Não porque nunca erre ou porque tenha sempre a resposta certa, mas porque existe uma atenção para o que está acontecendo.

Isso não quer dizer que toda situação ruim tenha sido colocada no nosso caminho para ensinar alguma coisa. Tenho cada vez mais cuidado com esse tipo de ideia, porque nem toda dor precisa virar lição e nem tudo o que acontece tem um sentido que a gente vai conseguir encontrar.

Tem coisas que machucam, perdas que doem, injustiças e situações que talvez nunca façam sentido. Ainda assim, depois que alguma coisa já aconteceu, em algum momento pode surgir uma pergunta importante: o que eu faço com isso agora?

Para mim, essa mudança de pergunta tem muito a ver com a sabedoria dessa Linha.

Não significa fingir que não doeu ou transformar sofrimento em sinal de fraqueza. É conseguir perceber que, mesmo quando eu não tive escolha sobre aquilo que aconteceu, talvez tenha alguma escolha sobre o que vou fazer daqui para a frente.

E essa parte, sim, é minha.

Esperteza também precisa de limite

Tem gente que confunde esperteza com a capacidade de levar vantagem.

Eu não consigo enxergar a malandragem da Umbanda desse jeito.

Uma pessoa pode ser extremamente inteligente e usar essa inteligência para manipular alguém. Pode perceber as fragilidades do outro, entender exatamente onde tocar e usar tudo isso para conseguir o que quer. Isso exige habilidade, claro. Mas eu não chamaria isso de sabedoria.

O que me chama atenção na Linha dos Malandros é justamente a mistura de esperteza com limite. É conseguir perceber quando alguém está tentando nos levar para determinado jogo e, ainda assim, escolher não jogar da mesma forma.

Às vezes isso significa se defender sem precisar destruir o outro, sair de uma situação sem transformar aquilo numa necessidade de vingança ou simplesmente reconhecer uma intenção ruim e decidir não alimentar mais aquilo.

Na teoria parece simples. Na prática, principalmente quando mexem num ponto sensível nosso, é outra história.

É muito fácil falar sobre equilíbrio quando ninguém está nos irritando. O problema começa quando alguém nos provoca, nos engana, nos desrespeita ou atinge justamente aquilo que ainda consegue tirar a gente do eixo.

É nessas horas que aquilo que a gente aprende dentro do terreiro começa a encontrar a vida real.

E a alegria?

Outra coisa que sempre me chama atenção nos Malandros é a alegria. E não estou falando daquela obrigação de estar bem o tempo inteiro ou de fingir que tristeza, raiva, cansaço e preocupação não existem.

O que me interessa é outra coisa: o quanto a gente vai carregando situações muito depois de elas terem terminado.

Às vezes uma conversa aconteceu uma vez, mas nós repetimos cinquenta dentro da cabeça. Pensamos no que deveríamos ter dito, imaginamos o que a pessoa quis dizer, criamos respostas, voltamos ao assunto e mantemos aquilo vivo muito depois de o acontecimento ter passado.

Eu faço isso também. E, quando percebo, já gastei muito mais energia com aquilo dentro da minha cabeça do que com o fato em si.

Talvez a leveza que eu vejo nos Malandros passe um pouco por saber quando uma coisa já cumpriu o tempo dela. Não é esquecer, fingir que nada aconteceu ou simplesmente mandar todo mundo “seguir em frente”. É entender o que dá para entender, fazer o que é possível fazer e perceber quando continuar alimentando aquilo já não está ajudando em nada.

Isso é diferente de não sentir.

Acho que é mais sobre não deixar que uma situação ocupe dentro da gente muito mais espaço do que ela precisa ocupar.

O que o Guia está tentando ensinar?

Talvez esse seja um dos pontos que mais tenham mudado na minha forma de olhar para a Umbanda.

É muito fácil procurar uma entidade pensando no que ela pode fazer pelo nosso problema. A gente quer saber se o caminho vai abrir, se alguma coisa vai ser tirada, se a situação vai mudar, se haverá proteção, se aquilo vai se resolver.

Eu entendo isso porque muitas vezes é justamente um problema que leva a gente até o terreiro.

Só que, com o tempo, comecei a perceber que existe uma outra pergunta que também pode ser feita: o que esse Guia está tentando me ensinar com essa conversa?

Porque, às vezes, a consulta parece falar sobre uma situação externa, mas o aprendizado está em outro lugar. Pode estar na dificuldade que tenho de colocar limite, na minha necessidade de aprovação, no impulso de responder a tudo, na insistência em uma situação que já terminou ou até na dificuldade de admitir que alguma escolha minha também participou daquele problema.

E o interessante é que os Guias nem sempre entregam isso como uma explicação completa.

Às vezes vem numa frase, numa brincadeira ou num comentário que, naquele momento, parece quase sem importância. A gente sai da consulta e segue a vida. Depois alguma coisa acontece e aquela fala volta.

Aí a ficha cai.

É isso que quero dizer quando falo que os Guias ensinam aos poucos. Algumas coisas simplesmente não conseguimos entender antes de viver um pouco mais.

E existe uma diferença grande entre procurar uma entidade apenas querendo uma resposta e chegar diante dela disposto a aprender alguma coisa.

O professor pode ser o mesmo. O que muda é a forma como eu me coloco diante dele.

O que eu tenho aprendido com essa Linha

Quanto mais penso nos Malandros, menos consigo associar malandragem a enganar alguém.

A malandragem que vejo ensinada nessa Linha tem muito mais a ver com aprender a andar pelo mundo prestando atenção. Entender que existem pessoas boas e outras nem tão bem-intencionadas, perceber que nem toda provocação merece resposta e reconhecer que algumas portas fechadas talvez não precisem ser arrombadas.

Também passa por uma coisa que nem sempre é confortável: perceber o quanto nós mesmos podemos entrar em algumas armadilhas.

Às vezes não foi ninguém que nos derrubou. Nós interpretamos uma situação de determinada forma, reagimos rápido demais, insistimos por orgulho ou ficamos tanto tempo tentando provar alguma coisa que esquecemos de perguntar se aquilo ainda fazia sentido.

Não gosto de usar isso para colocar toda responsabilidade sobre a pessoa, porque a vida não funciona assim. Existem situações em que realmente somos prejudicados, enganados ou machucados pelo outro. Mas também existem momentos em que olhar apenas para o que fizeram conosco impede que a gente perceba o que ainda pode fazer por si mesmo.

Talvez seja aí que a espiritualidade comece a deixar de ser apenas uma explicação para o que acontece ao nosso redor e passe a participar da forma como lidamos com o que acontece.

É por isso que gosto tanto dessa Linha.

Os Malandros não me parecem professores de como ganhar o jogo da vida. Até porque nem sei se existe esse jogo em que alguém realmente ganha tudo.

Para mim, eles ensinam a perceber melhor onde estamos pisando, com quem estamos lidando, quando vale insistir e quando é melhor mudar de caminho. E, no meio disso tudo, talvez exista uma pergunta ainda mais importante: quem eu escolho ser enquanto atravesso tudo isso?

Acho que é aí que a malandragem começa a ficar realmente interessante.

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