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A Umbanda, para mim, sempre foi mais do que uma religião praticada em determinados dias da semana.

Com o tempo, fui percebendo que aquilo que eu escutava dentro do terreiro começava a aparecer em outros lugares. Numa conversa difícil, numa escolha que eu precisava fazer, na forma como eu reagia quando alguma coisa saía do controle ou quando era muito mais fácil responsabilizar o outro do que olhar para mim mesma.

Talvez tenha sido aí que comecei a entender a Umbanda também como uma filosofia de vida.

Não no sentido de transformar tudo em regra ou de sair procurando uma explicação espiritual para cada coisa que acontece. Penso mais naquilo que acontece quando uma experiência espiritual realmente encontra espaço dentro de nós e começa, aos poucos, a modificar a maneira como vivemos.

Mas o que fazemos com tudo aquilo que ouvimos no terreiro?

Essa pergunta me acompanha há bastante tempo.

Às vezes penso na Umbanda como uma espécie de manual para essa experiência que estamos vivendo aqui. Não um manual com respostas prontas, dizendo exatamente o que fazer em cada situação, mas um conjunto enorme de referências para entender melhor a vida, as relações e, principalmente, a nós mesmos.

Quando começamos a conhecer os Orixás, as linhas de trabalho e os diferentes arquétipos que aparecem através dos Guias, percebemos que cada um parece iluminar uma parte dessa experiência. Um Preto-Velho me faz olhar para determinadas questões de um jeito. Um Caboclo pode me colocar diante da mesma situação por outro ângulo. Exu evidencia coisas que talvez eu preferisse não enxergar. Uma Pombagira pode tocar justamente naquele ponto em que minha relação comigo mesma, com o desejo, com os limites ou com a liberdade ainda está confusa.

E isso não acontece porque um sabe uma coisa e o outro sabe outra, como professores de matérias separadas. Eu vejo mais como diferentes portas de entrada para um conhecimento muito maior sobre a vida. Cada linha tem sua forma de ensinar, seus símbolos, sua linguagem, seu campo de atuação e uma maneira particular de chamar nossa atenção para determinados aspectos da existência.

Talvez por isso eu tenha começado a olhar para os Guias também como professores.

O Guia que me acompanha, assim como aquele que encontro numa consulta, não está ali apenas para resolver um problema que eu levei até ele. Muitas vezes, aquele problema é só o ponto de partida da conversa. Por trás da resposta existe um ensinamento que pode levar muito mais tempo para ser compreendido.

E eles ensinam aos poucos. Em doses quase homeopáticas, eu diria. À medida que uma coisa começa a fazer sentido, outra aparece. À medida que consigo enxergar um pouco mais, também consigo receber um pouco mais.

Mas existe uma condição importante nisso tudo: eu preciso me colocar no lugar de aprendiz.

Porque posso passar anos diante de um professor perguntando apenas quando minha vida vai melhorar, quem está me atrapalhando ou o que ele pode fazer por mim. Posso também começar a perguntar o que aquela situação está tentando me ensinar, o que ainda não estou percebendo e qual é a minha parte naquilo.

Talvez o professor seja o mesmo. O que muda é a forma como eu me apresento diante dele.

E é por isso que volta aquela pergunta: o que fazemos com tudo aquilo que ouvimos no terreiro?

Podemos ouvir uma entidade falar sobre paciência e continuar reagindo da mesma forma diante de qualquer contrariedade. Podemos pedir orientação sobre um relacionamento e, depois, repetir exatamente os comportamentos que nos trouxeram sofrimento. Podemos pedir abertura de caminhos sem perceber quantas vezes insistimos em escolhas que fecham esses mesmos caminhos.

Então existe uma diferença importante entre receber uma orientação e conseguir trazê-la para a própria vida.

E isso não acontece de uma hora para outra.

Muita gente chega à Umbanda procurando ajuda. Às vezes é alívio para uma situação difícil, proteção, uma orientação, alguma resposta ou simplesmente um pouco de sentido para aquilo que está vivendo.

Não vejo problema nenhum nisso. Muitas vezes é justamente uma dor que nos faz procurar a espiritualidade.

A questão, para mim, começa depois.

O que fazemos com aquilo que recebemos?

Uma entidade pode nos ajudar a enxergar uma situação por outro ângulo, perceber algo que não estávamos conseguindo ver, sustentar espiritualmente um momento difícil, aconselhar ou até nos chamar a atenção para alguma coisa.

Mas, depois desse encontro, continuamos com uma vida para viver.

As escolhas continuam sendo nossas, assim como uma parte das consequências que vêm delas. Talvez uma das coisas mais importantes que a Umbanda tenha me ensinado seja justamente essa tentativa de fazer espiritualidade e responsabilidade caminharem juntas.

Por muito tempo, comecei a levar algumas questões da vida para dentro da minha relação com os Guias de uma forma muito simples.

Diante de alguma situação, eu pensava: “O que a Vovó me aconselharia agora?”

Ou imaginava o que a Cabocla me diria se estivesse ali comigo. E, dependendo da situação, vinha outra pergunta bem menos delicada: “Com que cara a Pombagira deve estar me olhando neste momento?”

Pode parecer uma brincadeira, mas isso foi se tornando um exercício interessante para mim.

Não porque eu imaginasse uma entidade fiscalizando cada decisão minha, nem porque surgissem respostas prontas na minha cabeça. Era uma maneira de tentar sair, por alguns instantes, do lugar automático de onde eu estava enxergando o problema.

Quando estamos muito envolvidos numa situação, é fácil enxergar tudo a partir da nossa própria mágoa, do medo, das expectativas ou simplesmente daquilo que gostaríamos que acontecesse.

Ao imaginar o que uma dessas entidades poderia me dizer, às vezes eu conseguia mudar um pouco o ponto de vista. E, curiosamente, as perguntas que surgiam depois eram muito humanas.

Por que estou reagindo dessa maneira? O que eu realmente quero nesta situação? Estou tentando resolver alguma coisa ou apenas provar que estou certa? Existe algo aqui que depende de mim?

Esse tipo de pergunta não torna ninguém mais evoluído e muito menos impede que a gente erre.

Eu continuo errando.

Mas autoconhecimento tem alguma coisa a ver com isso: conseguir perceber um pouco melhor o que acontece dentro de nós antes, durante e depois das nossas escolhas.

Foi também na Umbanda que comecei a entender que olhar para nós mesmos não deveria significar passar a vida procurando defeitos.

Às vezes, o desenvolvimento espiritual acaba virando uma espécie de fiscalização permanente da própria personalidade. A pessoa começa a achar que não deveria sentir raiva, tristeza, medo ou ciúme; que qualquer emoção desconfortável revela algum tipo de fracasso espiritual. E, quando isso acontece, autoconhecimento facilmente se transforma em culpa.

Não acho que seja esse o caminho.

Nós carregamos uma história inteira conosco. Temos medos, contradições, hábitos, formas aprendidas de reagir e questões que nem sempre conseguimos perceber com facilidade. Algumas coisas ficam evidentes rapidamente. Outras levam muito tempo para aparecer. E perceber um padrão também não significa conseguir modificá-lo no mesmo instante.

Afinal, quantas vezes sabemos exatamente o que estamos fazendo e, mesmo assim, repetimos?

É por isso que tenho cada vez mais cuidado quando a ideia de responsabilidade começa a se misturar com culpa.

Para mim, assumir responsabilidade é conseguir olhar honestamente para aquilo que está ao nosso alcance.

Nem tudo que acontece na nossa vida foi escolhido por nós e nem tudo depende da nossa vontade. Existem circunstâncias, outras pessoas, limites e acontecimentos que simplesmente nos atravessam. Ainda assim, dentro de muitas situações existe alguma parte sobre a qual podemos agir.

Aprender a reconhecer essa parte, sem achar que controlamos tudo e sem entregar ao outro ou à espiritualidade aquilo que nos cabe, talvez seja uma forma de amadurecimento.

Essa mesma reflexão também mudou a forma como eu passei a olhar para a mediunidade.

Nunca consegui entendê-la apenas como incorporação. A incorporação é uma de suas expressões e tem uma importância enorme dentro do trabalho umbandista, mas a experiência mediúnica me parece participar de algo mais amplo. Ela envolve percepção, sensibilidade, discernimento e a forma como nos relacionamos com aquilo que sentimos, percebemos e interpretamos.

E, inevitavelmente, tudo isso encontra quem nós somos.

Nossos medos, expectativas, crenças e necessidades entram nessa experiência. Entra também a vontade de acertar, de pertencer, de ser reconhecido e até, em alguns momentos, o desejo de corresponder à imagem que fazemos de um “bom médium”.

Por isso, para mim, desenvolvimento mediúnico e desenvolvimento humano nunca estiveram realmente separados.

Podemos aprender procedimentos dentro de uma gira, conhecer fundamentos, estudar Orixás, Guias, linhas de trabalho, firmezas, rituais e tantos outros elementos que fazem parte da riqueza religiosa da Umbanda. Tudo isso importa.

Só que, ao mesmo tempo, existe outra aprendizagem acontecendo.

Quem é a pessoa que entra naquele terreiro?

Como ela reage quando é contrariada? Como lida com autoridade, frustração ou necessidade de aprovação? Ela consegue dizer que não sabe? Consegue ouvir uma orientação sem transformá-la automaticamente numa ordem absoluta? Consegue distinguir aquilo que percebe da interpretação que faz sobre o que percebe?

Essas questões também atravessam o desenvolvimento espiritual.

Talvez por isso eu tenha tanta dificuldade em separar completamente “vida espiritual” e “vida comum”.

Nós mudamos de roupa para entrar no terreiro, respeitamos rituais, fundamentos e a organização própria daquele espaço. Mas continuamos sendo a mesma pessoa quando voltamos para casa, para o trabalho, para a família ou para o trânsito.

E é justamente nesses lugares que muita coisa aparece.

Como tratamos alguém quando estamos irritados? O que fazemos quando ninguém está olhando? Como reagimos ao perceber que erramos? O que acontece quando uma orientação não confirma aquilo que queríamos ouvir?

É nesse sentido que, para mim, viver a Umbanda como filosofia de vida começa a fazer sentido.

Isso não diminui Orixás, Guias, rituais, fundamentos ou o trabalho espiritual. Na verdade, penso que torna essa relação ainda mais séria, porque nos obriga a perguntar o que estamos fazendo com tudo aquilo que recebemos.

Se reconheço sabedoria em uma entidade, preciso em algum momento observar o que faço com aquilo que ela me ensina. Se peço orientação, também preciso estar disposta a ouvir uma resposta que talvez não combine com a minha expectativa. Se falo sobre caridade, talvez seja interessante observar como trato as pessoas fora de um ambiente religioso. E, se falo tanto em humildade, provavelmente vale perceber o que acontece comigo quando sou contrariada.

Nada disso acontece de maneira perfeita.

E talvez nem precise acontecer.

Tenho certa desconfiança de uma espiritualidade que produz pessoas cheias de certezas sobre si mesmas, sobre os outros e, principalmente, sobre o mundo espiritual.

Quanto mais caminho dentro da Umbanda, mais percebo o tamanho daquilo que não sei. Ao mesmo tempo, algumas coisas passaram a fazer mais sentido.

Uma delas é a relação com os Guias.

Eu não acredito que estejam aqui para viver nossa vida. Uma orientação pode nos ajudar muito sem precisar decidir por nós. O amparo espiritual existe, assim como o trabalho, a proteção, a troca e a sustentação, mas isso não significa que toda dificuldade será retirada do caminho ou que cada escolha precise ser entregue à espiritualidade.

Existe uma relação profunda aí, mas continuamos sendo responsáveis pela parte da vida que nos cabe viver.

Talvez seja isso que hoje eu queira dizer quando falo que a Umbanda se tornou uma filosofia de vida para mim.

Não porque tenha me dado respostas para tudo. Pelo contrário. Em muitos momentos, ela mudou as perguntas.

E talvez a principal delas seja esta: o que tudo aquilo que aprendemos, sentimos e vivemos dentro do terreiro está fazendo com a pessoa que somos quando saímos de lá?

Porque existe uma diferença entre conhecer a Umbanda e permitir que aquilo que ela nos ensina participe realmente da forma como pensamos, escolhemos, convivemos, erramos e amadurecemos.

Eu ainda estou aprendendo a diminuir essa distância.

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