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Tem coisa que a gente entende com a cabeça muito antes de conseguir viver de verdade.

Você sabe que não precisa agradar todo mundo, mas continua ficando tensa quando precisa dizer não. Entende que uma relação terminou, segue a vida, mas alguma situação parecida acontece e o corpo reage antes mesmo de você conseguir organizar o pensamento. Ou percebe racionalmente que está tudo bem, só que continua inquieta, com dificuldade para relaxar, como se alguma parte sua ainda estivesse esperando alguma coisa acontecer.

Eu acho isso muito interessante porque mostra uma coisa que às vezes esquecemos: entender alguma coisa não significa necessariamente que já conseguimos mudar a forma como reagimos a ela.

Talvez seja por isso que alguns processos sejam tão frustrantes. A gente lê, pensa, conversa, entende de onde veio determinado comportamento e chega naquela sensação de “pronto, agora entendi”. Só que, alguns dias depois, acontece alguma coisa e lá estamos nós reagindo praticamente do mesmo jeito.

Durante muito tempo eu pensei nessa diferença como se existisse uma briga entre a mente e o corpo. Hoje não vejo tanto assim. Acho mais útil pensar que o nosso organismo também aprende e que muitas das nossas respostas foram sendo construídas ao longo da vida, às vezes muito antes de termos consciência delas.

O corpo também participa do que aprendemos

Nosso sistema nervoso está o tempo inteiro recebendo informações e ajudando o organismo a responder ao que acontece. Parte dessas respostas nem depende de uma decisão consciente. O coração acelera, a respiração muda, os músculos ficam tensos, a digestão pode ser afetada e o corpo se prepara para lidar com aquilo que percebe.

Isso ajuda a entender por que algumas reações aparecem tão rápido. Uma experiência anterior pode fazer com que determinado tom de voz, expressão, ambiente ou situação nos deixe em alerta, mesmo quando racionalmente sabemos que estamos vivendo outro momento.

Não precisamos transformar toda reação emocional em trauma para entender que aprendemos também pela experiência.

Se durante muito tempo eu aprendi que discordar gera conflito, por exemplo, posso desenvolver o hábito de ceder antes mesmo de me perguntar se quero ceder. Se cresci tentando perceber o humor das pessoas ao meu redor para evitar problemas, talvez continue prestando uma atenção enorme a qualquer mudança de expressão, mesmo quando não existe nenhum perigo real naquela situação.

Isso não quer dizer que exista uma frase guardada dentro do corpo dizendo “discordar é perigoso”. É só uma forma de explicar algo mais complexo. O que vamos construindo são associações, expectativas e formas de reagir que, de tanto serem repetidas, ficam familiares.

E muitas vezes essas respostas aparecem antes do discurso que criamos sobre quem somos.

Mas o corpo sabe a verdade?

No texto antigo eu escrevia que “o corpo sabe a verdade”.

Eu ainda gosto da ideia, mas hoje colocaria uma interrogação depois dela.

O corpo pode mostrar que alguma coisa está acontecendo conosco, mas isso não significa que ele saiba automaticamente o que está acontecendo. Essa diferença é importante porque um coração acelerado, por exemplo, pode ter vários motivos. Posso estar diante de alguma coisa que realmente me assusta, aquela situação pode me lembrar outra, pode ser ansiedade, cansaço, cafeína, alguma questão física ou uma mistura de tudo isso.

Uma dor de cabeça também não chega com uma legenda dizendo: “isso aqui é uma emoção que você não expressou”. Seria muito mais fácil se fosse assim.

Por isso comecei a gostar menos da ideia do corpo como um oráculo que entrega respostas e mais da ideia do corpo como uma fonte de informação que também precisa ser interpretada.

Às vezes ele chama nossa atenção para alguma coisa que ainda não percebemos. Outras vezes está simplesmente cansado.

E acho importante falar sobre isso principalmente porque quem vive a espiritualidade pode ter ainda mais facilidade para transformar qualquer sensação física em significado. Sentiu um aperto e já pensa em energia. Sentiu um arrepio e conclui que alguma entidade chegou. Ficou cansada num lugar e entende imediatamente que absorveu alguma coisa.

Pode existir uma percepção espiritual ali? Dentro daquilo que acredito, pode.

Mas eu não preciso decidir isso nos primeiros cinco segundos.

O corpo também é corpo, e sintomas persistentes, intensos ou preocupantes precisam ser olhados como questões de saúde antes de receberem uma explicação emocional ou espiritual.

Quando a situação passou, mas a reação continua

Uma das coisas mais estranhas é perceber que você já mudou de contexto, mas algumas respostas continuam aparecendo.

Você já não está naquela relação, já não mora naquela casa, não convive mais com determinada pessoa e sabe racionalmente que aquela fase terminou. Só que alguma situação parecida acontece e você reage com uma intensidade que até você estranha.

Isso não significa necessariamente que exista alguma coisa errada dentro de você.

Nosso cérebro aprende a partir das experiências e cria associações. Isso é útil porque não precisamos reaprender tudo do zero o tempo inteiro. O problema é quando uma resposta que fez sentido em determinado momento continua aparecendo em situações em que talvez já não seja necessária.

É aí que o autoconhecimento começa a ficar interessante.

Em vez de apenas perguntar “por que eu sou assim?”, posso começar a observar em que situações isso aparece, o que aconteceu imediatamente antes, o que pensei, o que senti no corpo e qual foi a minha reação. Não para criar mais uma fiscalização sobre mim mesma, mas para conhecer o padrão.

Porque às vezes a gente chama de “meu jeito” ou de “minha personalidade” uma forma de reagir que simplesmente repetiu por tanto tempo que ficou familiar.

E perceber isso não significa que será fácil mudar.

Só significa que agora eu consigo enxergar um pouco melhor o que está acontecendo.

Entender ajuda, mas viver diferente ensina outra coisa

É aqui que a neuroplasticidade começa a fazer sentido para mim sem precisar virar uma promessa de transformação mágica.

Nosso cérebro continua capaz de aprender e de se adaptar ao longo da vida. A repetição e as experiências que vivemos participam desse processo, mas aprender alguma coisa nova não significa apagar tudo o que existia antes e instalar uma versão nova de nós mesmos.

Talvez por isso uma afirmação repetida no espelho nem sempre consiga competir com anos de experiência.

Eu posso dizer cinquenta vezes “eu consigo colocar limites”, mas existe uma diferença enorme quando, numa situação real, consigo colocar um limite e descubro que sobrevivi à experiência. Talvez eu fique nervosa, minha voz trema e depois eu ainda passe duas horas pensando se fui grossa, mas aconteceu alguma coisa nova: dessa vez eu fiz diferente.

Quando essas experiências começam a se repetir, nosso repertório também aumenta. Eu deixo de ter apenas uma resposta possível para determinada situação e começo, aos poucos, a perceber que existem outras maneiras de agir.

Isso não acontece de forma linear.

Às vezes você trabalha uma questão durante meses, acha que já mudou bastante e, de repente, se vê reagindo exatamente como fazia antes. Eu não entendo isso como prova de que todo o processo foi perdido. Aprendizado humano não funciona como uma escada em que subimos um degrau e nunca mais voltamos.

Tem dias em que conseguimos fazer diferente. Em outros, o velho caminho aparece primeiro.

E a gente continua aprendendo.

Perceber antes de tentar consertar

No texto antigo eu falava muito em parar, respirar e observar.

A ideia continua fazendo sentido para mim, mas hoje eu não transformaria isso numa sequência de passos que precisa funcionar sempre do mesmo jeito.

Quando alguma situação me desorganiza, tenho tentado perceber primeiro o que realmente aconteceu antes de correr para consertar o que estou sentindo.

O que meu corpo fez naquela hora? Onde apareceu a tensão? Qual foi o primeiro pensamento? Eu reagi ao que realmente aconteceu ou ao significado que dei para aquilo? Essa sensação me parece conhecida? Em que outras situações eu fico assim?

Nem sempre tenho resposta na hora. Às vezes só percebo o que aconteceu muitas horas depois, mas já acho interessante quando consigo voltar para a situação e enxergar alguma coisa que antes teria passado completamente despercebida.

Porque consciência não é saber explicar tudo sobre si mesma.

Às vezes é simplesmente começar a perceber.

E existe uma diferença enorme entre perceber depois, perceber durante e, quem sabe um dia, perceber antes de reagir.

Nem tudo precisa ser reprogramado

Outra coisa que eu mudaria no texto antigo é essa sensação de que precisamos reprogramar tudo aquilo de que não gostamos em nós.

Hoje eu não penso mais assim.

Existem respostas que realmente causam sofrimento e que vale a pena trabalhar. Algumas precisam ser compreendidas antes de serem modificadas, outras mudam à medida que a própria vida muda e há situações que podem precisar de ajuda profissional.

Também existem partes nossas que talvez nunca fiquem exatamente como gostaríamos.

E isso faz parte de se conhecer.

Autoconhecimento não deveria criar uma nova obrigação: a de virar uma pessoa perfeitamente equilibrada, que entende todos os seus gatilhos, interpreta cada sensação corretamente e nunca mais reage de forma automática.

Eu nem sei se essa pessoa existe.

O que tenho percebido é que, quanto mais conheço meu jeito de funcionar, um pouco mais de escolha aparece. Às vezes ainda vou reagir como sempre reagi. Em outras situações consigo perceber enquanto está acontecendo e fazer alguma coisa diferente. E há momentos em que só entendo tudo depois que passou.

Mesmo assim, esse “depois” já é diferente de nunca perceber.

E onde a espiritualidade entra nisso?

Para mim, a espiritualidade não precisa competir com aquilo que sabemos sobre corpo, emoção ou sistema nervoso.

Uma experiência pode ter uma dimensão emocional e, para quem acredita, também pode ter uma dimensão espiritual. O problema começa quando escolhemos uma explicação antes mesmo de observar o que está acontecendo.

Eu posso entrar num lugar e sentir algo diferente. Posso perceber um ambiente pesado, uma mudança de estado ou alguma coisa que, dentro da minha experiência mediúnica, reconheço como percepção espiritual.

Mas ainda posso me perguntar como eu estava antes de chegar ali, o que aconteceu naquele ambiente, o que meu corpo está mostrando e se existe alguma outra explicação possível.

Acho que discernimento também é isso.

Não transformar tudo em espiritual, mas também não precisar negar a espiritualidade para parecer racional.

Talvez seja justamente essa capacidade de observar sem concluir rápido demais que nos ajuda a conhecer melhor tanto a nossa percepção quanto os nossos próprios padrões.

Hoje eu escuto o corpo de outro jeito

Eu continuo dizendo que o corpo fala, desde que a gente entenda essa frase como uma metáfora.

O corpo participa das nossas emoções, reage ao estresse, muda quando estamos com medo, quando relaxamos, quando nos sentimos ameaçados ou seguros. E as experiências que acumulamos ao longo da vida também participam da maneira como percebemos e respondemos ao mundo.

Só não acho mais que cada reação física seja uma mensagem secreta esperando para ser decodificada.

Hoje, quando alguma coisa aparece no corpo, tento observar antes de procurar uma resposta pronta. Às vezes encontro uma emoção que eu ainda não tinha percebido. Em outras reconheço um padrão antigo, percebo que uma situação me afetou mais do que eu imaginava ou descubro simplesmente que estou exausta e preciso dormir.

E acho que essa também é uma forma de voltar para mim.

O corpo não precisa decidir qual é a verdade por mim. Ele só precisa ter espaço para participar da conversa.

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