A dor de não pertencer e o retorno à tribo interior

Quando comecei a refletir sobre autoestima, uma palavra ecoava no meu campo energético com insistência: pertencimento.
Fechei os olhos, respirei fundo…
e deixei que esse fio invisível me puxasse para dentro, até onde minha consciência conseguisse alcançar.
Fui seguindo.
Descendo escadas dentro de mim, acendendo velas em porões esquecidos.
Até que encontrei uma portinha, lá no fundo.
O que encontrei do outro lado não foi o que eu esperava.
Encontrei o medo.
Um medo antigo, quase fossilizado no tempo.

Medo de crescer.
Medo de virar adolescente.
Medo de virar adulta.
Medo de assumir quem sou.
Medo de não caber.
Medo de ser deixada para trás.

A princípio, fiquei confusa. Sempre associei o medo à consequência, e não à causa.
Mas algo dentro de mim percebeu que talvez o medo seja a raiz de tudo.
Então, vamos pensar sobre isso. Porque quando as coisas fazem sentido, tudo fica bem mais fácil.

O arquétipo do exilado: a alma órfã

Na psicologia junguiana, esse sentimento não é um acaso.
Ele tem uma forma.
É o arquétipo do órfão, o exilado da própria essência.
Vemos o órfão como aquele que olha o mundo com os olhos de quem foi deixado do lado de fora.
É aquele que, mesmo cercado de gente, sente-se só.
Como se houvesse algo de estranho em si mesmo.
Como se a alma tivesse um defeito de fábrica — por isso, a sensação de que não se encaixa em lugar algum.

Mas essa dor… não nasceu fora.
Ela brotou em cada momento em que percebi, consciente ou inconscientemente, que precisava deixar de ser quem era para ser aceita.

Aquele instante sutil, normalmente imperceptível, em que entendi, ou interpretei nas situações, que a minha intensidade era demais, que poderia incomodar.
Minha sensibilidade, um problema.
Minha espontaneidade… esquisita.
Minha verdade… inconveniente.

E assim, a gente começa a se podar.
A se encaixar em moldes que não foram feitos para nós.
Começamos a sorrir em momentos em que queríamos chorar.
A dizer “tudo bem” quando não estava tudo bem — às vezes, estava péssimo.
E no final, dentro desse molde criado para agradar a todos, e sem agradar a muitos, achei a zona de conforto onde tudo estava sob controle.
Ruim ou bom, eu sei administrar.

Consegui! Fui incluída.
Mas não pertenço.

Porque pertencer não é ser aceito pela versão editada de você.
É ser amada com tudo: luz, sombra, profundidade, contradição.
Ser vista inteira e, ainda assim, ser acolhida.

E como o mundo não sabe fazer isso,
aprendemos a acreditar que o problema somos nós.
Que precisávamos ser mais “normais”, mais simples, mais leves, mais fáceis de amar.
E nessa tentativa, fomos nos afastando de quem somos…
Até um dia perceber:

O primeiro lugar que me rejeitou… fui eu mesma.
Eu me abandonei para não perder ninguém, para não ficar sozinha.
E, no fim, acabei me perdendo.
Na verdade, nunca tive a oportunidade de me conhecer de verdade.

Sabe o que é mais doido?
Não sou só eu perdida de mim mesma.
Por isso não me sinto amparada — porque ninguém consegue me ajudar com minhas dores.
A maioria está vivendo no seu labirinto interno, porque também precisou se podar para fazer parte.

Esse entendimento — de que eu não sou o problema — é um pouco libertador.
É um problema individual da coletividade que faz nossa sociedade ser tão problemática quando se trata de relacionamentos.

Sem esse entendimento — de que somente eu posso curar minhas dores e encontrar meu próprio caminho para meu eixo, de que só eu sei o que me dói, o que faz falta,  de que só eu posso identificar meus sentimentos e minhas necessidades — eu acabo passando a responsabilidade da minha vida e da minha plenitude para o outro, que por mais que tente, não sabe o que me faz feliz.

Não entender isso é, de forma infantil e mimada, como crianças emocionais que ainda somos, querer que o mundo e os outros sejam responsáveis pela nossa caminhada espiritual, que sejam culpados pelos nossos erros.

E os acertos? Poucos são comemorados, porque nosso olhar para a falta e para a escassez roda em primeiro plano, como programa principal no nosso cérebro.

O retorno Ao Eu interior

Mas aqui está a parte mais sagrada dessa história:
existe um caminho de volta.
E ele não começa encontrando um grupo.
Nem definindo um propósito.
Nem uma nova versão sua, mais “aceitável”.

A mágica acontece quando percebemos que tem alguma coisa errada.
Quando nos cansamos de ter que agradar os outros para podermos ser desagradáveis.
Quando percebemos que estamos perdendo tempo!
E o tempo passa tão rápido aqui nessa dimensão…

É mágico mesmo quando a gente acorda — ou melhor, desperta — e pergunta:
O que eu estou fazendo?”

A partir daí, vão surgir inúmeras perguntas sem respostas que começam a nos enlouquecer:
Qual é o meu propósito aqui nesta Terra? O que eu vim fazer aqui?
É isso mesmo: viver em sofrimento para sobreviver, sem objetivo?

O caminho começa quando nos sentamos, olhamos nos próprios olhos e dizemos:

Chega! Não importa o que o mundo acha: Eu me aceito.”
Sem maquiagem emocional.
Sem tentar caber em moldes.
Eu me recebo como sou. Volta pra casa, para dentro.

Essa é a reconexão com o Eu Interior e toda uma família espiritual que nos acompanha e aguarda que tenhamos esse despertar, esse entendimento, para nos ajudar a achar os significados e os sentidos.

A partir daqui começa o trabalho verdadeiro.
Porque se eu não gosto de quem me tornei, se não gosto do mapa que criei, se o personagem não faz mais sentido …
Eu devo a mim mesma a possibilidade de resgatar o tempo perdido.

Hora de se conhecer. De se entender. Com amor e carinho.
Não importa os motivos que criaram as minhas dores, os meus hábitos.
Não é hora para autopunição ou busca por culpados.
Isso é irrelevante agora.

Só o que importa é nos conhecer, aceitar nossas sombras e se fazer a pergunta mais mágica de todas:
Quem eu quero ser a partir de agora?

Agora sim, nem o céu é o limite!
É só manter o foco!
Que foco? Você!

Alguns vão dizer agora:
— “Mas que forma egoísta de ver as coisas. Vai pensar só em você?”

Sim!
Porque quanto mais perto da nossa essência estamos, mais perto do Divino a gente chega.
Quanto mais amor a gente aprende a cultivar, mais amor a gente vibra.

Todo sentimento em nós é como água em um copo.
Às vezes, é tanto que transborda!

Então, vamos parar de transbordar tristeza, desgosto, insatisfação…
Vamos transbordar amor nos amando muito, gratidão por ter percebido o quanto somos importantes e que merecemos cuidado.

A partir daí, nos tornamos multiplicadores divinos da fé, da esperança, da disciplina, da retidão de caráter, da força de vontade, dos sorrisos, da compreensão, da alegria…

Como isso pode ter a ver com egoísmo?
Justo agora que entendo que, assim como eu, todos somos divinos? Todos temos dores.
Agora que me enxergo no outro, fica fácil perceber que o julgamento era uma forma cruel que eu usava para diminuir minha própria dor.

Porque quando aponto os defeitos dos outros, o que eu quero mesmo é esconder os meus.
Aponto que o outro é tão imperfeito quanto eu.
Chamo a atenção para o outro, porque  assim ninguém tem tempo de olhar para mim.
… que grande ilusão que vivemos!

Quanto mais crescemos em nós, quanto mais sentimos amor, menos perfeitos precisamos ser.
Mais fácil se torna aceitar as pessoas à nossa volta.
Quanto mais alegria eu sinto, mais quero compartilhar com o mundo.

Quero dividir com o mundo meus conhecimentos porque tudo que aprendi, veio com estudos sim,
mas também com muitas experiências vividas, muitas dores e conquistas não comemoradas.

É isso que o Amor faz: nos conecta com o Divino e com quem está à nossa volta.
Quem não está pronto para se conectar, tudo bem.
Eu demorei muito.
E respeitar que cada um tem seu tempo é natural.

Eu passei por isso.
Ninguém me contou.
Não li num livro.
Não escutei em uma palestra.
Eu vivi — e vivo — isso.

Minha tranquilidade vem de olhar para cada resultado não mais como um fracasso, mas como um aprendizado.
E cada vez que faço algo “errado”, estou mais próxima de conseguir fazer certo.
A cada dia, o “errado” que antes era um desastre… hoje é só mais uma experiência.

A espiritualidade como campo de resgate

Existem muitas ferramentas hoje que nos ajudam a sair do nosso porão escuro.
Todas elas são válidas e funcionam, porque o que nos faz sair de lá, de verdade, é nossa vontade.

Quem quer mudar, não precisa de técnica ou muleta: só faz.

Mas querer dá medo!
Mudar toda uma estrutura comportamental é um passo enorme.
Será que as pessoas vão entender minha mudança? Vão se afastar? Vão me criticar?…

Para isso, as técnicas ajudam: para nos manter focados, utilizando os exemplos dos outros como motivação, nos exigindo uma disciplina para aplicar as ferramentas.

Ou vamos sem técnica mesmo!
Vamos aprendendo no caminho.
Dane-se o que vão dizer! Vão achar que estou louca? Não estou nem aí.

Porque a única coisa que importa é eu buscar minha autenticidade.
Só sendo autêntica, estou sendo sincera e verdadeira comigo e com os outros.

Chega de fingir para mim e para as pessoas. Vamos viver relações verdadeiras!

Vou contar um pouco da minha história.

Eu conheci a Umbanda com 13 anos.
Mas tem uns 10 anos que entendi de verdade o que é a Umbanda.

Em outros tempos, eu teria vergonha de dizer isso:
Que burra, né? Lenta!
Tantos anos dentro de uma religião e demorei mais de 20 anos para entender que ela é uma filosofia de vida?

Sim… é isso!
Mas mesmo sem entender o “espírito da coisa”, sempre fui acolhida e respeitada pela Umbanda.
(pelos seres humanos é outra coisa, mas isso é outro assunto)
Cada um tem sua história.
E essa é a minha.
(Eu acho que se todo mundo contasse suas histórias de vida, o mundo seria menos pesado.)

Um dia, há mais ou menos 10 anos, percebi que durante toda a minha vida, minha família espiritual estava me direcionando a olhar para dentro.
Sutilmente: no dia a dia, nas palavras das conversas, no tipo de pensamento que aparecia, no julgamento de como as coisas “deveriam” funcionar.

De repente, 20 anos depois do início do treinamento, olhei em volta e percebi que estava tudo errado.
Eu não estava vivendo como achava certo.
Minhas verdades estavam sendo trabalhadas, mas o medo de não ser aceita — de deixar de pertencer — era tão grande, que eu nem percebia o porquê de viver tão incomodada.

E claro que eu era chata, reclamona, sabe-tudo e infeliz.

Foi aí que dei uma de doida e rompi com aquele velho mundo para me reconstruir.
Me recolhi e comecei a colocar cada coisa aqui dentro no seu devido lugar.
Parece bonito, né? Mas não foi nada fácil, porque minhas sombras não me permitiram pedir ajuda.
Era eu, meus guias e Deus.
Foi difícil, mas foi verdadeiro.
Não fiz isso por ninguém, ninguém estava vendo. Foi por mim.

A cada dia fica menos difícil. Mesmo que as camadas fiquem cada vez mais profundas.
E cada dia que passa, me pergunto se vai dar tempo de resolver algumas questões antes de chegar minha hora de encerrar essa vivência, ou essa encarnação, ou como queiram chamar.
Quero chegar lá de cabeça erguida, mesmo sabendo que não fiz 100%, porque eu tento de verdade com as ferramentas que tenho.

Meta: que hoje seja melhor que ontem, eu fazendo sempre da melhor forma que eu consigo.

Nas horas de duvidas, olho para o lado e vejo minha família espiritual.
Sorrindo e satisfeita? Claro que não!
Vejo, sim, orgulho.
Sinto que estão satisfeitos porque sabiam que podiam confiar em mim,
mas o que dizem é:

Vamos logo! Não pára, não! Ainda não fez nada.
Até agora, só está limpando o caminho do tempo que perdeu iludida nesse mundo!

Tenho muitas ferramentas que fui aprendendo durante a caminhada.
Eu gosto de explicações. Saber como as coisas funcionam me ajuda a me manter em estado positivo.

Mas a Umbanda é minha filosofia de vida.
É nela que eu me sinto pertencente.
Onde encontro forças para não precisar pertencer a mais nada além de mim mesma nessa Terra.

Foi nela que aprendi que o conhecimento deve ser espalhado — e é por isso que eu comecei a escrever.
(e a falar para os que estão próximos)
Os que sabem mais ensinam aos que sabem menos.
E quem sabe menos aprende com quem sabe mais.
Esse fundamento é lindo!

Na Umbanda, sabemos que ninguém caminha só.
Mesmo no silêncio, mesmo no escuro, há uma equipe espiritual inteira sustentando nossos passos.
Guias, falangeiros, mentores e ancestrais — seres que vibram na frequência da nossa alma, que nos amam com um amor incondicional que nem conseguimos compreender, e que nos lembram, o tempo todo, de quem realmente somos e do que é importante.

A dor do não pertencimento, à luz espiritual, é a saudade da alma grupal.
É a frequência do exilado que anseia retornar ao sagrado onde se sente inteiro.
É o chamado para voltar ao terreiro interno, onde você pode dançar com quem te reconhece, mesmo sem palavras.

Todo crescimento é de dentro para fora.
Toda ajuda verdadeira é de dentro para fora.
Toda transmutação acontece de dentro para fora.

Na Umbanda, recebemos amor e ajuda de fora para dentro — com banhos, passes, palavras —
até que nossa barreira de proteção se quebre
e toda aquela energia e amor consiga penetrar no nosso íntimo
e, dali, comece a pulsar a semente da mudança — a nossa mudança.

Quando esse canal se abre,
a Umbanda vai penetrando, regando essa semente.
E depende de nós:
a velocidade com que ela vai brotar, a firmeza da raiz, a qualidade dos frutos.

Mas, a partir daí, o caminho interno está aberto.
E demore o tempo que for — 10 ou 20 anos, uma existência ou muitas — essa chama vai crescer, a árvore vai dar frutos.

Porque não existe barreira que o Amor não consiga penetrar.
E quanto tempo isso leva é irrelevante. Pois o tempo não existe.

Não estamos à deriva.
Existe um universo — e várias realidades — nos aguardando.
Mas isso só pode ser acessado quando retiramos a fantasia de “autoajuste”
e retornamos ao que é verdadeiro.

Um pequeno ritual para reabrir o canal

Se você sente que já está pronto para retornar à sua tribo interior, pode tentar isso com um pequeno ato simbólico:

🌿 Acenda uma vela branca. (com cuidado e segurança, como devemos ter ao lidar com o fogo)
🌿 Sente-se em silêncio, em um momento só seu, onde não será incomodado.
🌿 Traga consciência ao corpo. Se faça presente.
🌿 Respire com calma até se sentir relaxada, sem pensar em nada. Só relaxe. Só esteja.
🌿 Sinta o Universo ao seu redor, não se sinta pequeno, se sinta parte do todo, imprescindível, peça   importante da grande engrenagem divina.
🌿 Sinta o amor de todos que te amam, nessa existência e os amigos que fez ao longo da eternidade.
🌿 Se perdoe porque não somos o que fazemos. Quem estamos agora não é quem somos, não define nossa verdade.
🌿 Você tem força para se proteger de qualquer coisa, você é um fractal divino que só precisa acender a luz interna.
🌿 Sinta paz, sinta gratidão por se dar esse momento.

E diga, de coração aberto:

“Eu retorno à minha linhagem com humildade e verdade.
Eu me reconecto àqueles que me sustentam no invisível.
Eu me recebo como sou e me incluo em mim.
Sou parte. Sou forte. Sou caminho.”

Reprogramação interna: da crítica à pergunta certa

Parte da exclusão de si nasce no diálogo interno.
Então, podemos começar a treinar o cérebro a pensar diferente.

Em vez de perguntar:

– “Por que eu sou assim?”
– “Por que eu nunca consigo?”
– “Por que todo mundo anda, menos eu?

Troque por perguntas que abrem portais, e não que cavem fossas:

– “O que posso aprender com este momento?”
– “Que parte minha está pedindo acolhimento agora?”
– “Quais habilidades eu posso ativar para atravessar isso com mais consciência?”
– “Que virtude está sendo lapidada neste desafio?”
– “Como posso ser minha própria base segura agora?”

Quando você muda as perguntas, muda o campo de resposta.
O importante não é mais justificar o que está ruim, mas buscar o que pode ser bom.

Seu cérebro — e sua alma — reorganizam os mapas internos.
E assim, você sai da posição de vítima para a de protagonista amorosa da própria história.

A solidão termina onde o autoacolhimento começa

A verdade é que ninguém poderá te incluir completamente se você mesmo se mantém do lado de fora.
O vazio do não pertencimento só se dissolve quando você se reconecta com o que sempre esteve aí: você.

Você mesmo, inteiro.
Sem a necessidade de se esconder para se encaixar.
Sem precisar se podar para ser amado.

Aos poucos, o coração volta a confiar.
A frequência muda completamente.
E você começa a atrair pessoas, experiências e relações onde pode, finalmente, existir inteiro.

Ressignificar a autoestima foi transformador.
Porque autoestima, no fim das contas, é uma consequência — e não um fardo com o qual precisamos conviver.

É o reflexo do amor que você tem por si, quando não precisa mais ser outro para merecer aceitação.

Você já é.
Nós já somos.
Só precisamos lembrar.


  1. Avatar de Bruno Marins
    Bruno Marins

    Bom dia, Leitura transformadora! Obrigado por separar um tempo de sua vida para pensar em assuntos que nos ajudam a REFLETIR!!!

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