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Quando a gente fala em defesa energética, é muito fácil o pensamento ir direto para ataque espiritual, obsessão, demanda, inveja ou alguma coisa externa tentando nos atingir.

Durante muito tempo, eu acho que a própria forma como falamos sobre proteção espiritual ajudou a criar essa imagem. A pessoa sente alguma coisa diferente, passa por uma fase ruim, entra num ambiente e não se sente bem e a primeira pergunta acaba sendo: “quem está fazendo alguma coisa comigo?”

Só que essa pergunta, sozinha, pode nos colocar num lugar complicado.

Não porque influência espiritual não exista dentro da forma como compreendemos a Umbanda. Existe todo um trabalho de proteção, limpeza, firmeza e cuidado energético dentro da religião justamente porque reconhecemos que estamos em contato o tempo todo com pessoas, ambientes e também com o mundo espiritual.

Mas perceber isso não significa viver procurando ameaça em todo lugar.

Para mim, defesa energética começa muito antes do banho de ervas, da vela ou da firmeza. Começa na capacidade de perceber como eu estou.

O que está acontecendo comigo? Como tenho dormido? Como estão meus pensamentos? Tenho passado dias alimentando a mesma raiva? Estou sobrecarregada? Alguma situação me deixou mais sensível? Isso que estou sentindo começou quando?

Essas perguntas parecem muito simples, mas fazem diferença porque ajudam a não transformar imediatamente qualquer desconforto numa explicação espiritual.

Nem tudo que sentimos vem de fora

A gente vive em relação com o ambiente o tempo inteiro.

Entramos num lugar e podemos nos sentir bem ou desconfortáveis. Algumas pessoas nos deixam tranquilos, outras parecem exigir um esforço enorme da nossa parte. Existem conversas que nos animam e outras que nos deixam exaustos.

Dentro da espiritualidade, também entendemos que existe uma dimensão energética nessas relações.

Só que uma coisa não exclui a outra.

Eu posso ter entrado num ambiente que realmente me fez mal, mas também posso estar cansada. Posso sair de uma conversa muito mexida porque alguma coisa naquela pessoa me incomodou, mas talvez ela também tenha tocado numa questão minha. Posso perceber uma mudança energética e, ao mesmo tempo, estar emocionalmente fragilizada naquele dia.

É justamente aí que entra o discernimento.

Quanto mais rápido eu concluo “isso é espiritual”, menos espaço deixo para investigar o que realmente está acontecendo.

E o contrário também vale. Não preciso negar toda percepção espiritual só para parecer racional.

Talvez a maturidade esteja justamente em conseguir sustentar as duas possibilidades por algum tempo antes de sair dando nome para tudo.

O nosso estado interno também participa

Quando falamos em sintonia dentro da espiritualidade, eu gosto de pensar menos como uma lei rígida e mais como uma forma de observar afinidades.

Se eu passo muitos dias mergulhada em raiva, medo, culpa ou pensamentos repetitivos, isso muda meu estado. Muda minha atenção, minha forma de interpretar as coisas e até a maneira como me relaciono com as pessoas.

Espiritualmente, entendemos também que esse estado participa das relações energéticas que estabelecemos.

A analogia do rádio ainda me ajuda a pensar nisso. Existem várias estações transmitindo ao mesmo tempo, mas ouvimos aquela em que o aparelho está sintonizado. Só que seres humanos são muito mais complexos do que um rádio. Nós oscilamos, somos afetados por ambientes, por acontecimentos, pelo corpo, pela nossa história e também, dentro da nossa compreensão espiritual, por influências que nem sempre controlamos completamente.

Por isso eu tenho cuidado com a palavra “brecha”.

Ela pode ser útil em alguns contextos, mas também pode dar a impressão de que toda influência espiritual aconteceu porque a pessoa “deixou”.

Nem sempre é assim que eu vejo.

O que me parece mais importante é perceber que nosso estado interno participa da forma como lidamos com aquilo que nos alcança. Quanto mais eu me conheço, mais consigo perceber quando alguma coisa mudou e mais recursos tenho para me reorganizar ou pedir ajuda.

Perceber não significa carregar

Uma coisa que aprendi a observar é a diferença entre perceber um ambiente e sair dele carregando aquilo por horas.

Posso entrar num lugar e sentir um desconforto. Isso não significa necessariamente que alguma coisa “entrou em mim”. Pode ser sensibilidade, percepção do ambiente, uma reação emocional ou várias coisas acontecendo juntas.

O problema começa quando não conseguimos separar mais o que já estava conosco daquilo que apareceu naquela situação.

Eu estava bem antes de entrar ali? Esse pensamento já estava comigo? Meu corpo começou a reagir quando? Saí do ambiente e continuei me sentindo da mesma forma?

Esse tipo de observação ajuda muito mais do que concluir imediatamente que houve um acoplamento ou uma obsessão.

E é justamente por isso que autoconhecimento também faz parte da defesa energética.

Se eu conheço minimamente meu jeito de funcionar, começo a reconhecer o que é comum em mim e o que apareceu de forma muito diferente. Sei como fico quando estou cansada, como meu corpo reage à ansiedade, o que acontece comigo quando estou com raiva e quais pensamentos costumo repetir quando alguma situação me desorganiza.

Isso não me torna imune a nada.

Só me dá mais referência.

O corpo ajuda, mas não dá diagnóstico espiritual

O corpo é uma fonte importante de informação.

Às vezes percebemos primeiro uma mudança física e só depois conseguimos entender o que estava acontecendo emocionalmente. Podemos sentir tensão, cansaço, aceleração, aperto no estômago ou simplesmente uma sensação de desconforto que ainda não sabemos explicar.

Mas acho importante ter muito cuidado aqui.

Dor de cabeça é dor de cabeça antes de ser “energia”. Cansaço pode ser falta de sono. Aperto no peito merece atenção. Mudanças físicas podem ter causas emocionais, ambientais ou de saúde, e não é porque somos médiuns ou espiritualistas que tudo precisa ganhar uma explicação espiritual.

Eu gosto de começar pelo mais simples.

Dormi bem? Comi direito? Estou sobrecarregada? Estou passando por alguma coisa emocionalmente difícil? Isso começou depois de algum acontecimento específico? Existe um motivo físico que precisa ser investigado?

Depois disso, se ainda existe alguma percepção que para mim tem um componente espiritual, posso olhar também para ela.

O que acho perigoso é inverter a ordem e transformar qualquer sensação numa confirmação de que alguma coisa está nos atacando.

Autoconhecimento também protege

Talvez essa seja a parte mais importante de toda essa conversa.

Quanto mais eu me conheço, mais cedo percebo quando estou saindo do meu eixo.

E isso vale para coisas muito comuns. Às vezes percebo que estou reagindo com raiva muito antes de admitir que fiquei magoada. Em outras situações, acho que estou apenas “sentindo o ambiente”, mas depois percebo que alguma coisa ali tocou numa insegurança minha.

Isso não invalida a dimensão espiritual.

Só impede que eu use a espiritualidade para explicar tudo o que não quero olhar em mim.

Também não gosto da ideia de transformar autoconhecimento numa nova forma de culpa. Reconhecer que eu participei de uma situação não significa concluir que fui responsável por tudo o que aconteceu.

Tem coisa que vem de fora. Tem influência de outras pessoas, existem ambientes difíceis e, dentro da visão da Umbanda, existem também situações que pedem cuidado e ajuda espiritual.

A questão é não entregar automaticamente toda a explicação para fora.

Porque aí eu fico dependente de alguém limpar, tirar, cortar, quebrar ou resolver alguma coisa por mim toda vez que me sinto mal.

E acho que a espiritualidade pode nos ensinar muito mais do que isso.

Então banho, vela e firmeza não servem?

Servem. E fazem parte da Umbanda.

Banhos de ervas, firmezas, velas, orações, passes, defumações e tantas outras práticas existem dentro de um contexto religioso e espiritual que precisa ser respeitado.

Eu não vejo sentido em diminuir essas ferramentas para valorizar consciência ou autoconhecimento. Uma coisa não precisa competir com a outra.

O problema começa quando usamos o recurso espiritual sem olhar para a vida.

Posso tomar banho de ervas para me reorganizar e depois voltar para a mesma discussão que venho alimentando há uma semana. Posso fazer uma firmeza pedindo equilíbrio e continuar entrando conscientemente em situações que me desorganizam. Posso pedir proteção e ignorar todos os sinais de que estou ultrapassando meus próprios limites.

Nesse caso, talvez o ritual esteja fazendo a parte dele e eu ainda não esteja fazendo a minha.

É diferente de dizer que “o banho não funciona”.

Funciona dentro daquilo que ele se propõe a fazer. Só não vive a nossa vida por nós.

Às vezes a defesa energética é muito menos misteriosa

Tem dias em que precisamos de um banho.

Em outros, precisamos dormir.

Às vezes uma oração ajuda muito. Em outra situação, o que está faltando é sair de uma conversa que já passou do limite.

Podemos precisar de passe, de orientação de um Guia, de uma firmeza ou de acompanhamento espiritual. E também podemos precisar reconhecer que estamos há três dias repetindo mentalmente uma situação que já terminou.

A dificuldade está justamente em saber diferenciar uma coisa da outra.

E talvez seja por isso que eu tenha mudado tanto minha forma de pensar defesa energética.

Hoje ela tem menos a ver, para mim, com descobrir de onde está vindo o ataque e mais com aprender a perceber como estou, o que está me afetando, o que é meu, o que pode não ser e o que eu consigo fazer diante disso.

Nem sempre vou conseguir sozinha.

E não preciso.

A própria Umbanda existe também como espaço de cuidado, orientação e sustentação.

Só que pedir ajuda é diferente de entregar toda a responsabilidade.

Talvez uma boa defesa energética seja justamente essa combinação: aprender a se observar, usar com respeito os recursos que a espiritualidade oferece e saber quando alguma coisa precisa de ajuda além daquilo que conseguimos fazer por nós mesmos.

No fim das contas, cuidar da nossa energia não deveria nos deixar com mais medo do mundo.

Deveria nos ajudar a caminhar por ele com um pouco mais de consciência.

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