Caráter e Ogum: A Força de Quem Anda Reto 

Quando se fala em caráter, muita gente pensa apenas em moralidade superficial, boa imagem ou reputação. Como se caráter fosse parecer correto diante dos outros, manter uma aparência limpa ou sustentar um discurso bonito.

Mas caráter quase nunca aparece no palco. Ele se revela nos bastidores, naquilo que ninguém vê, na escolha que ninguém aplaude, na decisão tomada quando seria fácil mentir e na postura mantida mesmo quando seria mais conveniente ceder.

Porque caráter não é performance. É estrutura interna, por isso é um bom lugar para começar o processo de autoconhecimento, buscar se entender e identificar suas sombras.

Vivemos em um tempo em que parecer bom muitas vezes vale mais do que ser íntegro. Em que discursos emocionam, promessas convencem e aparências confundem.
Mas a vida, mais cedo ou mais tarde, mostra a diferença entre imagem e essência. É quando as máscaras caem, porque ninguém consegue fingir o tempo todo.

Na verdade, a pergunta é: para que? Porque temos que gastar tanta energia convencendo os outros?
Se é certo que não vamos agradar todo mundo, não é muito mais coerente ser nós mesmos? Vão ficar por perto aqueles que nos respeitam e entendem que a verdade vale muito mais que a ilusão.

E Ogum vibra justamente nesse ponto.

Ogum representa retidão, firmeza, coerência e Lei. Sua força não se impressiona com palavras bonitas, intenções declaradas ou justificativas inteligentes. Ela responde à verdade da conduta.

Ao que a pessoa faz.

Não ao que diz que faria.

Ter caráter sob a vibração de Ogum é entender que existem escolhas que ninguém verá, mas que definirão quem nos tornamos.

É devolver aquilo que poderia ser escondido.
É cumprir aquilo que foi prometido mesmo quando perdeu a graça.
É assumir um erro sem terceirizar a culpa.
É recusar vantagens obtidas pela desonestidade.
É manter e honrar a própria palavra quando seria fácil traí-la.
É não trair seus princípios por conveniência
É manter integridade mesmo em ambientes corrompidos

Muita gente acredita que caráter se prova em grandes momentos, mas normalmente ele se mostra nas pequenas repetições do cotidiano.

Na forma como você trata quem não pode lhe oferecer nada.
Na honestidade diante do dinheiro.
Na disciplina quando ninguém está cobrando.
Na fidelidade aos próprios princípios quando surge vantagem imediata.
Na coerência entre aquilo que exige dos outros e aquilo que pratica.

São nesses detalhes que uma vida se constrói ou se corrompe.

Ogum não vibra no famoso “jeitinho”. Ou seja, não vibra na esperteza usada para ferir, ou naquela mentira conveniente. Então é fácil entender que não tem como se sintonizar ou alcançar essa frequência divina enquanto se alimenta uma desordem moral.

Porque a força da retidão exige alinhamento. Essa é mais uma Lei, sendo repetitiva, ou estamos alinhados ou desalinhados, não existe o meio termo: ou está reto ou não está. Não existe “meio reto”.

E isso, para muitos, incomoda. Afinal, dá para fingir para as pessoas, e até para si mesmo, mas não tem como enganar Deus. Energia não mente: sintonizamos com o que vibramos. E assim é a Lei.

Ter caráter não é não ter sombras. Inclusive, o “não ter sombras” não é o objetivo. E sim reconhecer que elas existem e não permitir que governem sua vida.

Quando eu começo a entender quem eu sou, quando passo a aceitar minhas sombras e me integrar a elas, eu me aceito como humano. Aceitar essa humanidade é essencial para me sintonizar com essa vibração da Lei, porque automaticamente começo a reconhecer a humanidade nas outras pessoas.

Com isso, paro de agir como criança achando que tudo à minha volta tem a ver comigo, de pensar que tudo o que o outro fala ou faz é pessoal, carregado de mensagens ocultas ou ofensas. Fico vendo carapuças em todo lugar. Não tem como viver em paz assim. Perco meu tempo olhando para fora, julgando, fingindo e me adaptando, quando deveria estar olhando para dentro.

Todos carregamos impulsos, ego, medo, vaidade e tendências inferiores. O problema não é possuí-los. O problema é obedecê-los sem consciência.

É aí que a vibração de Ogum se torna necessária. Porque ela nos convida a colocar ordem onde antes havia confusão.

Ter caráter também não significa rigidez arrogante ou perfeição impossível. Significa reconhecer falhas e ainda assim escolher corrigi-las, significa cair e levantar limpo e sem vergonha, significa errar como um aprendiz em busca de conhecimento, significa não transformar fraquezas humanas em desculpa e justificativa para vitimização e paralisação.

Existe uma diferença importante entre falhar e se vender.

Todo ser humano falha, mas nem todo ser humano se entrega àquilo que sabe ser indigno. Parece pesado e tenho certeza que todos pensam em situações grandes quando escutam isso. mas estamos falando de dia a dia, da fofoca, da calúnia, da fila que se fura, da mentira que se conta para sair mais fácil de uma situação desagradavel, e ficaria aqui listando por páginas e mais páginas. Mas acho que deu para entender a abordagem.

Caráter começa quando a consciência pesa… e ainda assim escolhemos o certo. Mesmo sem plateia, sem recompensa imediata ou quando ninguém agradece.

Muitos querem a força de Ogum para vencer demandas externas, abrir caminhos e afastar obstáculos.

Mas ignoram que a primeira demanda, muitas vezes, está no próprio caráter. Na mentira repetida, na promessa vazia, na falta de palavra, na covardia disfarçada de prudência ou na conveniência travestida de inteligência. 

Enquanto isso não é enfrentado, muita coisa continua travada. Afinal, toda mudança de realidade começa de dentro para fora. O que vem de fora para dentro não se sustenta por muito tempo quando não encontra ressonância ou solo fértil para fincar raízes.

Ter caráter sob a vibração de Ogum é ser confiável e honrado.

E ser confiável hoje é raro.
É raro encontrar quem honra o que diz, quem não muda de valor conforme o ambiente, quem não negocia princípios por migalhas (normalmente emocionais), quem permanece inteiro mesmo em tempos corrompidos.

Mas é justamente isso que fortalece destinos.

Porque uma pessoa sem caráter pode até ganhar atalhos, mas dificilmente sustenta caminhos.

Talvez por isso tanta gente queira prosperar, evoluir e crescer sem antes trabalhar a própria base, querem altura sem estrutura, movimento sem eixo e vitória sem merecimento.

Ogum ensina o contrário: 

Primeiro firmeza.
Depois caminho.

Primeiro retidão.
Depois expansão.

Primeiro verdade.
Depois força.

Então talvez a pergunta de hoje não seja se você é visto como alguém de caráter.
Talvez seja mais profunda:

Quem você se torna…
quando ninguém está olhando?

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